O jeito calmo da artista plástica Karina Spineli Gera, 31, dá lugar à empolgação quando o assunto são os novos projetos que direcionará na Feac (Fundação de Esporte, Arte e Cultura de Franca), instituição que assumiu como diretora na atual gestão municipal.
As ideias são muitas e os projetos, idem. Entre as propostas estão a criação de feiras itinerantes para artesãos levarem seus trabalhos para eventos populares, como a Expoagro, e teatro e dança para os bairros de Franca. O Circuito das Artes também está nos planos e prevê a produção de um livro e um documentário sobre artistas francanas.
Uma das novidades mais aguardadas nessa nova gestão da Feac é o lançamento do Fest Cultura. O projeto piloto poderá ser testado em 2013. Karina compara esse festival ao Hallel, evento católico francano que atrai milhares de pessoas para shows, pregações e orações. O Fest Cultura deve ser focado nos artistas locais. O ponto desse projeto que pode gerar polêmica é a possibilidade de que ele substitua a Virada Cultural, promovida todo ano pelo governo estadual e que leva aos municípios artistas diversos.
Aos 31 anos, Karina tem no currículo uma graduação em publicidade e propaganda (Uni-Facef), especialização em Artes (Unifran), MBA em marketing (Fundação Getúlio Vargas) e, atualmente, dedica-se a um mestrado em linguística na Unifran, onde leciona nas áreas de design gráfico, produtos e moda.
Nascida em São Paulo, mudou-se para Franca junto à família em 1998. Em 2005, quando trabalhou como gerente de marketing no Comércio, teve a oportunidade de se aprofundar no circuito cultural da cidade. Mas o contato de Karina com as diversas formas de arte vem da infância, por influência da família. “Meu avô e bisavô maternos eram escultores de madeira. Pelo lado de pai, todos eram artesãos. Minha mãe fazia artesanatos quando eu era criança.”
Karina descobriu o amor pelas tintas ainda na infância. Hoje, adulta, além de estar diretamente ligada à gestão cultural de Franca, ela se orgulha da realização de um sonho: a criação de um ateliê de cultura para agregar a classe artística local. “O Artiloka é um projeto que batalhei para construir. É para ser um local onde os artistas possam se encontrar e promover a arte.”
Comércio da Franca - Como foi o primeiro contato com suas atribuições nessa nova função?
Karina - Na verdade, quando entrei, tomei um susto. Você ser artista é uma coisa, estar na parte de gestão da arte é outra. Em minha primeira semana aqui, já tinha um “bolo” de documentos na minha mesa, com os projetos que o prefeito Alexandre Ferreira queria que estivessem na ativa. E todos com prazo para execução. Somos uma equipe que cuida da Pinacoteca, do Museu da Imagem e do Som, do Museu Histórico Municipal “José Chiachiri”, coordena o Arquivo Histórico de Franca, a banda municipal, dá apoio à biblioteca... Há uma infinidade de projetos que a Feac toca; só em janeiro, demos continuidade a 36 deles. Porém, nós temos uma meta, passada pelo prefeito para dar andamento nos já existentes e, ao mesmo tempo, desenvolver outros. Este ano vamos montar cinemas nas escolas e estamos em busca de apoio do governo do Estado.
Comércio - Quais mudanças a Feac vai promover a curto prazo?
Karina - O Arte na Rua, em que artesãos ficavam aqui na praça, em frente à Feac, expondo seus trabalhos, todos os sábados, vai mudar. Esse projeto agora vai percorrer os bairros e levar diversas formas de arte, como teatro, dança, etc. Os artesãos farão parte de outro projeto, mesmo porque, a exposição na praça não estava sendo positiva. Vim desse projeto e sei que a visitação neste local aos sábados não tem sido grande; além de ser descoberto, quando se chove não tem como expor. Estamos fazendo cotação de barracas para montarmos feiras itinerantes. Eles estarão presentes, por exemplo, na Expoagro, e em outros eventos promovidos pelas secretarias municipais. Isso já está fechado. Ao invés de ficarem esperando o público aparecer, eles é quem irão até as pessoas, em um local de grande movimentação. Para organizar melhor, vamos cadastrar esses artistas na Feac, uniformizá-los e capacitá-los para que aprendam a estipular o preço dos produtos e dispô-los de modo atrativo.
Comércio - Há mais projetos?
Karina - Outra novidade que criamos é que todo mês de março a Pinacoteca receberá as obras das artistas francanas, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher [8 de março]. Isso já está funcionando e não fazemos seleção; participa quem quiser. Este é o segundo ano em que acontece esse trabalho que se chama Elas de Março. Em 2012 ele ocorreu no Artiloka. Essa exposição não está somente na Pinacoteca. Temos mais de 200 obras expostas em espaços culturais de Franca. Faremos ainda o Circuito das Artes, workshops sobre a vida de todas as artistas do Elas de Março. Essas oficinas serão gravadas em forma de documentário e as biografias se tornarão um livro.
Comércio - Você assumiu o cargo há cerca de dois meses. Qual a grande mudança que já encarou?
Karina - Acredito que seja montar o plano de ação para a cultura de Franca; o que nunca houve. Isso quer dizer que todos os projetos desenvolvidos durante o ano entrarão no planejamento já com determinação de datas para execução, equipes definidas e esquema de monitoramento dessas ações. Com o planejamento, consigo prever o que irá acontecer daqui a alguns anos e ir abrindo caminhos, buscar parceiros. Uma coisa que sempre acreditei é que falta de recursos não significa falta de projeto, de ideia ou de iniciativa. Então não vai ser falta de recurso que vai nos segurar.
Comércio - Como pretende driblar a falta de recursos?
Karina - Fechamos parceria com todas as secretarias da Prefeitura. Como não temos uma verba muito expressiva e todos os outros departamentos têm verbas destinadas à parte de divulgação e eventos, fomos oferecer nosso leque de serviços. Sabemos que a Secretaria de Saúde, por exemplo, vai realizar campanhas preventivas contra doenças sexualmente transmissíveis, dengue, entre outras. Nós então disponibilizamos a montagem de peças de conscientização e agentes de divulgação para as campanhas. Isso quer dizer que não haverá só a distribuição de panfletos nas praças, mas uma intervenção artística ligada ao tema e que chame a atenção das pessoas.
Comércio - Até há pouco tempo, você estava na posição de artista e agora está na posição de gestora da arte. Como lidar com essa inversão?
Karina - Antes estava do lado que pedia, hoje estou do lado que ouve pedidos e tem a missão de tentar realizá-los. Uma realidade triste é que não posso atender a maioria dos pedidos. Ouço pedidos como: ‘patrocina os cartazes da minha festa’, ‘arruma o som para o meu evento’. Isso de modo muito informal. Chegam sem me apresentar um projeto, sem explicar do que se trata o evento. Preciso de projetos para viabilizar o que quer que seja. Claro que estamos aqui para ajudar e dar apoio cultural. Isso nós podemos e vamos fazer, mas preciso saber: essa festa vai atingir a que público? Quantas pessoas são esperadas? Há cobrança de ingressos? Como o projeto envolve a cultura de Franca? São questões que estou tendo que trabalhar com a classe artística. E isso já começa a mudar. O primeiro projeto que apoiamos este ano foi o Grito do Rock, que há quatro anos tentava ter apoio. É um festival que ocorre em 300 lugares de 30 países ao mesmo tempo. Um projeto de extrema importância mas que a gente não apoiava antes.
Comércio - Por quê não?
Karina - Acredito que às vezes falta um pouco de articulação. Realmente não temos uma verba para dizer: ‘colega, você precisa de R$ 5 mil? Toma aqui.’ Mas este ano pedimos o projeto orçamentário para a organização, eles trouxeram e nós avaliamos todos os itens. E se eles iriam desembolsar, por exemplo, R$ 2 mil para alugar um salão, nós viabilizamos o espaço, que foi a Francana. Se gastariam ‘x’ com alimentação, verificamos se na data escolhida a cozinha piloto da Prefeitura poderia ajudar. Desse modo conseguimos mais de 50% do valor total para realização do evento sem desembolsar nenhum tostão da verba da Feac, que já está comprometida para os projetos.
Comércio - Qual tem sido seu grande desafio?
Karina - Uma coisa que estou percebendo aqui, na parte executiva dos setores municipais, é que às vezes no privado você consegue agilizar seus projetos. Na [área] pública as coisas são morosas. Tudo tem que passar por vários setores até se ter uma autorização. E, às vezes, por vaidade, por briga partidária, as coisas não vão para frente. Esses melindres já estamos tendo por aqui. Além de ter que lutar para conseguir verba, para fazer as coisas funcionarem, temos que lidar com oposições. E não sou do meio político. Nunca fui. Não tenho vergonha nenhuma em dizer que não tenho uma visão política, mas que estou tendo que formar uma até para me proteger. Às vezes acho que uma pessoa está vindo aqui para ajudar e ela está vindo para ‘roubar’. Tivemos dois casos de pessoas que vieram aqui, perguntaram sobre nossos projetos e apresentaram nossas ideias na Prefeitura como se fossem delas. Estou aprendendo com os erros.
Comércio - E o que tem sido sua ‘menina dos olhos’?
Karina - Um festival de cultura que criaremos e que foi uma das propostas de governo do Alexandre: o Fest Cultura. A intenção é que seja um tipo de ‘Hallel da Cultura’. Será um evento grandioso, com três dias de duração. Estamos estudando a possibilidade de usarmos neste evento a verba que damos em contrapartida para a realização da Virada Cultural e assim investir nos artistas locais. É legal a Virada Cultural? É, claro. Mas tenho que analisar dentro do nosso microambiente o que este festival traz de retorno para a nossa população e artistas locais. A Virada Cultural beneficia a sociedade de uma forma em geral, mas acaba não dando espaço para o artista local, porque os artistas são sugeridos pelo governo do Estado. Aqui, nós temos a condição de fazer essa triagem e, se precisar de algum ajuste ou mesmo negociar cachê, é mais fácil. Em 2013 teremos uma mini edição do que será o Fest Cultura. Estamos resgatando as festas populares locais. A Cavalhadas já funciona; todo agosto tem. Só que queremos, neste ano, incluir no evento a Folia de Reis e a Congada. A região de Franca é extremamente rica culturalmente e pode agregar, e muito.
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