A Câmara Municipal premia hoje em sua sede, às 20 horas, Regina Bastianini com a medalha Mérito Literário Luiz Cruz de Oliveira. A comenda vem por indicação da Academia Francana de Letras, reconhecendo a importância e o valor da professora e escritora de cinco livros. “Me sinto muito honrada com a homenagem; ainda mais vindo de pessoas muito queridas. Mas eu fico temerosa em me empolgar, em vestir a roupa de poetisa”, disse a homenageada em tom de franqueza.
Avessa a títulos -como o de escritora e poetisa -, Regina encontra na própria simplicidade a inspiração para seus versos reflexivos. Na entrevista que concedeu ao Comércio, juntamente com o escritor Luiz Cruz, no último dia 18, ela contou que teve na infância e família a base que a moveu em direção aos versos. Versos capazes de despertar no amigo sentimentos intensos, como ele próprio revelou ao dizer como enxerga a criação poética de Regina. “Eu vejo com inveja porque eu não sou capaz de fazer. Mas eu invejo muito mais a prosa que ela faz. Ela está recebendo o prêmio, provavelmente, em razão de Mar em canto, última obra que publicou, mas, na minha concepção, das obras dela, a que vai ficar na memória é No Tempo dos Lambaris Sagrados. E eu costumo acertar nessas minhas previsões”, disse Cruz.
Esta é a segunda edição da medalha que leva o nome de Cruz e o escritor se diz lisonjeado com a homenagem e vê, com isso, uma oportunidade de valorizar quem ajuda a promover a literatura local. “Eu fiquei altamente satisfeito e também muito feliz com a escolha das duas pessoas que foram premiadas até hoje: Sonia (Machiavelli) e Regina. Elas são excelentes escritoras? São. Mas eu entendo que o prêmio vale muito mais pelo trabalho delas em prol da literatura francana”, disse antes de completar: “Isso não quer dizer que a Sonia não tenha uma obra literária muito importante e que a Regina não tenha uma obra brilhante.”
Confira a entrevista com Regina:
Comércio da Franca - Qual o sentimento dominante diante da cerimônia de recebimento da Medalha Mérito Literário Luiz Cruz?
Regina Bastianini - É um misto de honra e de medo. É lógico que eu me sinto muito honrada com a homenagem; ainda mais vindo de pessoas muito queridas. Mas eu fico muito temerosa em me empolgar, de vestir a roupa de poetisa, de achar que eu sou importante quando na verdade eu sei que eu não sou tão importante assim. Eu não me considero uma escritora. Eu escrevo e gosto. Mas ser escritora é algo muito sério; que exige muita dedicação, empenho.
CF - Sobre sua vocação: quando se sentiu tocada pela palavra poética?
Regina - É difícil precisar isso porque a minha família é formada por pessoas que têm um certo encantamento pela palavra. Os meus avós maternos eram nordestinos, retirantes. Meu avô era repentista e minha avó contava muitas histórias. Nós vivíamos na zona rural (nos arredores de Franca) em uma época que talvez seja até difícil de ser imaginada pelos jovens de hoje. Não havia energia elétrica - nós não tínhamos acesso, na maior parte do tempo, nem mesmo ao rádio. Então crescemos ouvindo histórias. Primeiro contadas pela minha avó, que sabia criar um mundo mágico como ninguém. Depois, pelo meu pai, que nos apresentou Pedro Malasarte... Minha mãe, embora tenha tido pouco estudo, sempre gostou de escrever. Hoje tem até mesmo um livro publicado. E tudo isso me estimulou. Quando eu entrei em contato com o rádio, por exemplo, eu fiquei fascinada. O rádio era a palavra passeando pelo mundo. Então eu tinha essa semente e, mais tarde, pude conviver com pessoas que gostavam de literatura, que eram apaixonados pela palavra, como o Luiz Cruz, por exemplo. Tudo isso me impulsionou em direção à palavra.
CF - Quais são os seus livros publicados?
Regina - O primeiro foi Eu e o mundo, de 1990. O segundo foi Entrenós, que saiu em 2003. Depois veio Contraponto, em 2006; No tempo dos lambaris sagrados, de 2009, e, o último, Mar em canto, de 2012.
CF - Qual é o papel da poesia no mundo contemporâneo?
Regina - Eu não sei se a poesia tem, exatamente, um papel. Ela é um elemento veiculador de beleza, sensibilidade, encantamento, de amor pela vida e pelo ser humano. Mas hoje eu vejo que nem sempre ela funciona como tal. Talvez ela não seja muito acessível; principalmente para os mais jovens. Eu não saberia dizer o por quê, mas, eu sinto esse distanciamento entre as novas gerações e a poesia. Pode ser que eu esteja sendo reacionária ao dizer isso mas enxergo na cultura atual a predominância de muita grosseria, agressividade, e às vezes até de desesperança. Acredito que a poesia poderia abrir os canais da sensibilidade das novas gerações. Só que nós, os mais velhos, não estamos sabendo como fazer chegar esses caminhos até as novas gerações. Claro, há exceções. Acho que a poesia nunca foi coisa de massa, cultivada para todo mundo. E eu sinto que tem diminuído o interesse pela poesia na mesma medida em que tem diminuído o interesse pela leitura.
CF - Quais são os poetas de que gosta?
Regina - Em primeiro lugar Fernando Pessoa. Ele é o meu poeta preferido, meu poeta de cabeceira, o meu grande ideal, minha referência. Depois os poetas brasileiros. Nosso país tem grandes nomes como: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Manuel de Barros... Mas minha grande referência é o Pessoa.
CF - O poeta é um fingidor, como afirma Fernando pessoa?
Regina - É. Mas ele finge que finge também (risos).
CF - O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia enquanto forja o verso?
Regina - Eu não sei se o verdadeiro poeta é esse. Acho que é ‘também’ isso. Ele encontra a ideia, o verso escapa. Às vezes encontra o verso e a ideia e o sentimento escapam. A grande arte é casar todas essas coisas. Isso é uma busca eterna.
Regina Bastianini - É um misto de honra e de medo. É lógico que eu me sinto muito honrada com a homenagem; ainda mais vindo de pessoas muito queridas. Mas eu fico muito temerosa em me empolgar, de vestir a roupa de poetisa, de achar que eu sou importante quando na verdade eu sei que eu não sou tão importante assim. Eu não me considero uma escritora. Eu escrevo e gosto. Mas ser escritora é algo muito sério; que exige muita dedicação, empenho.
Regina - É difícil precisar isso porque a minha família é formada por pessoas que têm um certo encantamento pela palavra. Os meus avós maternos eram nordestinos, retirantes. Meu avô era repentista e minha avó contava muitas histórias. Nós vivíamos na zona rural (nos arredores de Franca) em uma época que talvez seja até difícil de ser imaginada pelos jovens de hoje. Não havia energia elétrica - nós não tínhamos acesso, na maior parte do tempo, nem mesmo ao rádio. Então crescemos ouvindo histórias. Primeiro contadas pela minha avó, que sabia criar um mundo mágico como ninguém. Depois, pelo meu pai, que nos apresentou Pedro Malasarte... Minha mãe, embora tenha tido pouco estudo, sempre gostou de escrever. Hoje tem até mesmo um livro publicado. E tudo isso me estimulou. Quando eu entrei em contato com o rádio, por exemplo, eu fiquei fascinada. O rádio era a palavra passeando pelo mundo. Então eu tinha essa semente e, mais tarde, pude conviver com pessoas que gostavam de literatura, que eram apaixonados pela palavra, como o Luiz Cruz, por exemplo. Tudo isso me impulsionou em direção à palavra.
Regina - O primeiro foi Eu e o mundo, de 1990. O segundo foi Entrenós, que saiu em 2003. Depois veio Contraponto, em 2006; No tempo dos lambaris sagrados, de 2009, e, o último, Mar em canto, de 2012.
Eu não sei se a poesia tem, exatamente, um papel. Ela é um elemento veiculador de beleza, sensibilidade, encantamento, de amor pela vida e pelo ser humano. Mas hoje eu vejo que nem sempre ela funciona como tal. Talvez ela não seja muito acessível; principalmente para os mais jovens. Eu não saberia dizer o por quê, mas, eu sinto esse distanciamento entre as novas gerações e a poesia. Pode ser que eu esteja sendo reacionária ao dizer isso mas enxergo na cultura atual a predominância de muita grosseria, agressividade, e às vezes até de desesperança. Acredito que a poesia poderia abrir os canais da sensibilidade das novas gerações. Só que nós, os mais velhos, não estamos sabendo como fazer chegar esses caminhos até as novas gerações. Claro, há exceções. Acho que a poesia nunca foi coisa de massa, cultivada para todo mundo. E eu sinto que tem diminuído o interesse pela poesia na mesma medida em que tem diminuído o interesse pela leitura.
Regina - Em primeiro lugar Fernando Pessoa. Ele é o meu poeta preferido, meu poeta de cabeceira, o meu grande ideal, minha referência. Depois os poetas brasileiros. Nosso país tem grandes nomes como: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Manuel de Barros... Mas minha grande referência é o Pessoa.
Regina - É. Mas ele finge que finge também (risos).
Regina - Eu não sei se o verdadeiro poeta é esse. Acho que é ‘também’ isso. Ele encontra a ideia, o verso escapa. Às vezes encontra o verso e a ideia e o sentimento escapam. A grande arte é casar todas essas coisas. Isso é uma busca eterna.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.