Quando Lula Ferreira recebeu a incumbência de reconstruir o Vivo/Franca, em junho do ano passado, deixou claro que cumpriria a missão apostando em promessas que seriam “auxiliadas” por três pilares: jogadores mais experientes, mas que sempre foram coadjuvantes em suas ex-equipes. O melhor deles era Juan Pablo Figueroa, que defendia o Pinheiros e fazia parte da Seleção Argentina. Em segundo plano vinha Guilherme Teichmann, ex-Flamengo, indicado o capitão do novo time e que sempre se destacou por sua garra e força física. O terceiro era, até então, uma incógnita.
Hoje, Jhonatan Luz dos Santos, 26, é o cestinha do time no NBB, com média de 14,8 pontos por jogo, e um dos principais responsáveis pela boa campanha do time no campeonato. Esta é a comprovação de que a aposta de Lula estava certa para a alegria dos torcedores que agora entendem a importância do ala na reconstrução do time.
Outra característica apreciada é a simpatia que o atleta dedica aos torcedores após as partidas no Poliesportivo. Tranquilamente, ele distribui autógrafos e conversa com todos que se aproximam. A humildade e simplicidade ele diz ter sido forjada em uma infância difícil vivida na favela de Rochdale, em Osasco, onde nasceu. Jhonatan perdeu o pai biológico quando tinha apenas três anos de idade, vítima de uma bala perdida. Acabou criado pela força da mãe, Rose, que sempre fez questão de educar o filho mais velho e seus dois irmãos. “Minha mãe foi uma guerreira. Ela precisava trabalhar e cuidar da família. Foi complicado. Uma fase não tão boa da minha vida. Mas é dali que eu tiro forças”, reconhece Jhonatan, que eternizou a importância da família em uma tatuagem feita na sua perna direita. “É o ‘J’ de Jhonatan, com Rose (mãe) e meus irmãos (Natanael e Washington)”.
Apesar das dificuldades, Jhonatan terminou o ensino médio depois de dar muito trabalho para dona Rose. “ Minha mãe quis me tirar do basquete porque eu não conseguia dividir o tempo entre o esporte e os estudos. Na época, o time que eu treinava venceu um título, que seria meu primeiro, e eu não estava presente porque precisava recuperar minhas notas. Aquilo me marcou tanto que enfiei a cara nos livros. Virei um nerd e terminei os estudos”, lembra o atleta, que ganhou o basquete como presente de um primo. “Com 10 anos, eu estava estudando e meu primo me tirou da escola dizendo que iria me levar ao dentista. Eu acreditei! Chegamos no Clube Continental (time de base de Osasco). Nisso o pessoal estava treinando e eu já era apaixonado, pois assistia NBA. “Eu ficava espantado vendo os caras jogarem. Olhava pro Jordan e pensava ‘poxa esse cara tem asas’. Era mágico e eu me imaginava fazendo aquelas coisas”, revela.
SUSTENTO PRECOCE
Aos 16 anos, Jhonatan foi chamado para integrar o elenco juvenil do Paulistano. “Foi quando comecei a dar um passo a mais rumo ao profissional. O técnico do time na época era o Neto (José Alves Neto, que atualmente comanda o Flamengo) e eu falei pra ele que queria ficar no time mais velho, aprender e treinar lá. Queria virar profissional e fui feliz nisso. Fiquei forte, mas apanhei bastante”. Depois de quatro anos atuando pelo time da capital, o ala, juntamente com o pivô Paulo Prestes, foi contrato pelo Málaga, da Espanha. Jhonatan passou três anos atuando em clubes menores do país ibérico. Retornou ao Brasil em 2010. “Voltei pro Araraquara e joguei meu primeiro NBB (2009/2010). Depois fui pra Limeira e tive a felicidade de ser campeão profissional pela primeira vez (Campeonato Paulista 2010)”, conta. Foram três anos atuando sob o comando de Demétrius. Em 2011/2012, a situação do ala no Limeira ficou insustentável. “Estava atuando praticamente como pivô, e isso acabava com minhas estatísticas e meu rendimento. Foi quando o Lula me procurou e disse que gostaria que que eu fizesse parte deste novo time. Ele falou que gostaria que eu fosse um dos pilares dessa reconstrução. Aceitei na hora. Dou graças a Deus pelo meu rendimento. Toda essa minha estatística eu devo ao time todo”, afirma Jhonatan.
Descontraído, ele ainda faz questão de ajudar a comandar o time dentro de quadra. Por isso, se auto intitula “O cara mais chato do time”. Fora, é um dos mais divertidos do elenco. “É só gozação nos treinamentos! Rola muita brincadeira! Temos vários personagens aqui no time. Os irmãos gêmeos, que são o Luquinhas (assessor de imprensa) e o Zanini. O Guilherme (Teichmann) que parece o Ri Tin Tin. Tem também o Romário, que parece o Compadre Washington. Isso melhora a convivência”, brinca Jhonatan, que entre piadas, apelidos e jogos mantém um objetivo claro em mente. “Quero muito jogar uma Olimpíada. Quero defender as cores do Brasil porque eu sou “muito” brasileiro! Nunca joguei uma partida oficial pelo Brasil e esse é meu sonho. E o Franca Basquete está me ajudando pois, com o estilo de jogo da equipe, eu consigo dar o meu melhor em quadra”, revela o atleta, que já foi convocado para a seleção brasileira, em 2005, quando a mesma era comandada por Lula Ferreira. “O Lula é super importante na minha carreira. E ele sempre viu minha vontade de vencer e a minha entrega durante os jogos. Eu agradeço muito pois ele sempre acreditou muito em mim. Só tenho a agradecer “.
DE ESCOLTADO A ÍDOLO
Jhonatan é uma prova viva de como o mundo trabalha de forma estranha. Quando perguntado sobre como era enfrentar a temida torcida francana, ele ri. “Eu já saí escoltado daqui (Póli). Estava jogando um playoff pelo Paulistano, em 2005. No meio do jogo eu dei uma enterrada em cima do Estevão que estava em uma fase monstruosa. O legal é que eu comentei, um dia antes, com o Shammel (ala) que eu sonhei com uma enterrada pra cima do Estevão”, afirma. “Pra mim foi uma felicidade imensa. Aqui (Póli) estava lotado! Tudo tremia! Nunca havia jogado em um ginásio assim. Eu tinha que jogar com uma torcida dessa a favor. Imagina eu sendo campeão aqui? É um incentivo muito forte”. O próximo confronto de Jhonatan e do Vivo/Franca no NBB será sábado, contra o Minas Tênis fora de casa.
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