A jornalista e pedagoga americana Ann Jones, assim que terminaram os bombardeios dos Estados Unidos no Afeganistão, decidiu deixar Nova York, onde vivia, para dirigir-se ao país asiático onde permaneceu entre os anos de 2002 e 2005, tentando, de alguma forma, minorar o sofrimento daquele povo. O país, que sofrera invasão soviética e se viu arrasado pelas bombas dos EUA, acabou dominado pelas milícias talibãs. Anotou a jornalista que encontrou ali um ambiente medieval.
O século dezesseis parece haver dormido, esquecendo-se de ceder o espaço ao alvorecer do terceiro milênio. E o que mais impressiona os justos são as condições de vida das mulheres afegãs. Os costumes, exibindo triste dicotomia e resistente anacronismo – comparativamente com quase todas as sociedades de um mundo tão pequeno –, impõem abusiva e desrespeitosa submissão masculina sobre a mulher.
É muito comum pais venderem suas filhas para homens idosos com os quais são obrigadas a se casar, inobstante a idade infantil, parecendo significar reles objeto de troca. Meninas, tristes, são vendidas para, mortas, fazer a alegria de quem lhes recebe os órgãos em transplantes, negociados no mercado internacional. Sem direitos reconhecidos, basta o marido acusar, perante um tribunal, e sua mulher tornar-se-á ré, por qualquer que seja o “deslize cometido”, e condenada a ser abandonada, depois de espancada pelo próprio esposo. Visitando as prisões, especialmente em Welayat, a americana encontrou mulheres prisioneiras que, em qualquer outro país, seriam consideradas vítimas, e não delinquentes.
Todo o material e informações colhidos por Ann Jones deram origem ao seu livro “Cabul no Inverno”, com tradução em português publicada pela Novo Conceito, no qual a autora, além de denunciar o brutal sofrimento a que estão submetidas as mulheres afegãs, faz duras críticas ao governo de Bush, aos imperialismos americano e russo e ao fundamentalismo religioso.
A leitura do livro suscita as perguntas: Como acabar com a exploração contra a mulher? Por que tantas dores e aflições? As respostas, porém, não são difíceis. Mas, sem a doutrina da reencarnação, não há como explicar qualquer sofrimento, porquanto trata-se de colheita indesejável, depois de semeadura irresponsável.
O Evangelho ensina o bem que redime, eleva e salva, mas lembra que quem antes subjugou vem a ser subjugado, quem hoje subjuga haverá de ser subjugado amanhã. Deus não faz acepção de pessoas. É de Jesus as expressões educativas: “a cada um segundo as suas obras” e “fazei aos outros o que desejais que os outros vos façam”. Em nossos dias, já não ignoramos estar o nosso planeta em processo transitivo para elevação de sua psicosfera moral. Será a prevalência do bem poderoso fator a determinar que a parcela de nós que recalcitrar no mal se transfira para orbes onde o desconforto corresponderá ao seu nível de moralidade e seja, ali, obrigada a retomar a senda da evolução a golpes de sofrimentos piores.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Idefran (Instituto de Divulgação Espírita de Franca)
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