‘Quero deixar bem claro para todos que não penso em desistir’


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O prefeito de Restinga, o agricultor Paulo Pitt, diz que sofre com as ameaças e teme pela segurança da família, mas que lutará para melhorar a cidade
O prefeito de Restinga, o agricultor Paulo Pitt, diz que sofre com as ameaças e teme pela segurança da família, mas que lutará para melhorar a cidade

Abatido e cinco quilos mais magro desde que assumiu o cargo, o prefeito de Restinga, Paulo Pitt (DEM), de 53 anos, ainda não consegue esquecer os momentos de tensão que viveu na noite do último domingo, 3. Ao voltar para casa após a festa de aniversário de 49 anos da cidade, ele foi atacado por três homens que o esperavam em seu quintal. Um dos ladrões ficou com a arma apontada para sua cabeça. O prefeito escapou depois de reagir e quebrar o vidro da porta da sala acordando sua mulher, Ana Pitt, que gritou por socorro e espantou o trio. O episódio foi o terceiro crime de que o prefeito foi vítima nos dois meses de mandato.

Antes, Pitt já havia perdido porcos roubados de sua fazenda e parte de uma plantação de cana-de-açúcar em um incêndio suspeito. Os 11 hectares queimados geraram prejuízo estimado em R$ 70 mil. Para o prefeito, os três incidentes têm relação direta com a postura adotada por sua administração.

Na entrevista que concedeu ao Comércio, na recepção da Prefeitura de Restinga, na quarta-feira, Paulo Pitt, sem citar nomes, atribuiu os acontecimentos a um grupo político ligado ao ex-prefeito Clarindo Ferracioli, o Belão.

Ele se emociona e chora ao lembrar dos momentos que passou e diz que chega a se arrepender de ter entrado para o mundo da política. Mas apesar disso, não aceita falar em renúncia e disse que, mesmo com as ameaças, não vai desistir de Restinga e dos seus sonhos de transformação. “Agora não tem volta. Vou até o fim.” O prefeito se diz atento às ameaças, mas afirma que não tem medo de morrer e que o processo de mudança iniciado pela sua administração não pode mais ser interrompido.

No mês passado, o político ainda enfrentou outro desgaste. Uma área doada pela Fepasa à Prefeitura de Restinga, às margens da rodovia Nestor Ferreira, foi invadida por 300 famílias da cidade. Pitt precisou pedir na Justiça a reintegração de posse da propriedade.

Paulo Pitt compara o atual momento vivido por Restinga - que tem cerca de 6.500 moradores - com uma revolução. “É como se aqui existisse um regime militar e viesse a democracia.” Sobre o futuro, diz que espera uma trégua nos conflitos. “Acredito que isso vai parar e que eles vão perceber o quanto estão errados.”

Comércio da Franca - O senhor tem dois meses à frente da Prefeitura de Restinga. Como tem sido?
Paulo Pitt -
Com muita adrenalina e dias complicados. Peguei uma administração com vícios que perduram há muitos anos. Para mudar, não será da noite para o dia. Comparo Restinga ao Brasil na época de transição do Ditadura para a democracia. Aqui é como se existisse um regime militar e agora estivesse chegando a democracia. É muito difícil.

Comércio - O senhor diz que herdou uma administração com muitos vícios. O que seriam esses vícios?
Pitt -
O que chamo de vícios são irregularidades que ainda vigoram. Um exemplo é uma lei municipal que concede aumento de 30% no salário de servidores que estão próximos da aposentadoria, sem estipular qualquer critério para isso. Isso é um absurdo. É inconstitucional. É imoral. Mas aqui em Restinga existe. No ano passado, fizeram um recadastramento dos servidores e aumentaram os salários de alguns em até 200%, sem qualquer justificativa. Essas coisas acabam dificultando a administração. Outra coisa, em janeiro do ano passado, a Prefeitura gastou R$ 76 mil com combustível. Este ano, no mesmo mês, gastamos R$ 20 mil. Em fevereiro de 2012, foram R$ 84 mil, agora R$ 27 mil.

Comércio - O senhor foi vereador na legislatura anterior. Não poderia ter fiscalizado tais irregularidades?
Pitt -
Não. O trabalho como vereador é muito diferente do de prefeito. Como vereador, ainda mais sendo da oposição, a gente não consegue acesso a muitas coisas. Mas como prefeito é diferente. Apesar que mesmo agora, não consigo ter o controle de tudo aqui na Prefeitura. Diria que conheço apenas 20% de tudo. Outras coisas e outras votações aconteceram quando eu nem era vereador.

Comércio - O senhor também comparou Restinga a um regime militar. Por que essa comparação?
Pitt -
Existe um grupo de pessoas que estava no poder há muitos anos e que agia de acordo com um sistema que usa o bem público em favor próprio. E eu e o meu governo representamos o novo. Queremos mudar, fazer uma administração honesta para desenvolver Restinga. Por isso tenho sofrido com esse grupo que quer me intimidar, que não acredita que vou conseguir ir até o fim.

Comércio - O senhor fala sobre sistema, o que exatamente é isso?
Pitt -
É um grupo de pessoas que pensa que vive na Suíça, que está em uma cidade de clima bom, mora em uma boa casa, num lugar que quase não tem violência e trabalha quando quer e se quer, mas ganha um salário de R$ 6 mil, R$ 7 mil da Prefeitura sem responsabilidade alguma. Eles acham que estão no céu. Mas não é assim a vida. Isso não está certo. Eles não podem ganhar sem trabalhar. Aqui, quando assumi, tinha muito funcionário com esse salário que nem para assinar o livro de ponto vinha à Prefeitura. Pedi a ficha deles e verifiquei que os livros de ponto estavam em branco, mas o salário eles recebiam.

Comércio - O que o senhor fez diante dessas constatações?
Pitt -
Ainda estou fazendo, tentando regularizar tudo e fazer com que eles trabalhem. Mas é muito difícil lidar com eles. Eles são seres humanos, estão cheios desses vícios, acomodados há anos. Aí chego querendo mudar tudo. Você imagina o que estou enfrentando. Existem casos em que o funcionário fez um empréstimo consignado no banco e quem estava pagando era a Prefeitura. Não havia o desconto no salário dele. Outro absurdo é que não havia qualquer controle sobre a frota de veículos. Recebemos em janeiro cinco multas dos carros oficiais que não temos como cobrar dos servidores porque antes não havia controle sobre quem usava os veículos. Não vou aceitar isso. Já exonerei um punhado de servidores. Já denunciei um monte de coisas para o Ministério Público. É por isso que estou sofrendo tantas intimidações.

Comércio - Por falar em intimidações, o senhor foi alvo no último dia 3 de uma tentativa de assalto em sua casa, reagiu e se machucou. Antes já tinha tido animais furtados de sua fazenda e um incêndio na sua plantação de cana. Como é tudo isso?
Pitt -
[fica pensativo] Com muita tristeza. Nunca imaginei que, ao me tornar prefeito, fosse enfrentar algo assim [diz com a voz embargada]. No dia do assalto, só pensei na minha família que estava dentro de casa, senti muito medo de que eles [os bandidos] pudessem ferir minha mulher e meus filhos. Hoje se pudesse voltar no tempo, preferia mil vezes não ter entrado para a política [chorando]. Era feliz e não sabia. Não devia ter entrado nisso. Estaria cuidando da minha plantação de cana e dos meus negócios.

Comércio - Além desses episódios, o senhor teve que enfrentar a invasão à uma área da Prefeitura. Alguns invasores afirmaram que teriam recebido apoio de vereadores. Como avalia essa invasão?
Pitt -
De fato, para mim, aquilo lá foi um ato político para me atingir, mas que acabou perdendo força. Hoje praticamente não existe mais invasão. A Justiça no Brasil é muito lenta. Entrei com o pedido de reintegração de posse, mas demorou para sair. Agora devo executar a ordem de desocupação.

Comércio - O senhor lutou por quase 20 anos para se tornar prefeito. Agora parece arrependido...
Pitt -
[interrompe] Apesar de tudo o que tem acontecido, quero deixar bem claro para todos que não penso em desistir. Não penso em voltar atrás e não vou parar. Entrei nessa briga por conta de um sonho. Queria uma política diferente e mais justa para Restinga. E não tem mais como voltar atrás.

Comércio - Na verdade, tem. É só o senhor renunciar... Existe essa opção.
Pitt -
Nem falo essa palavra. Para mim, essa não é uma opção. Sou um homem que honra sua palavra. Sei que não vou conseguir mudar Restinga em quatro anos, mas vou deixar a cidade melhor. Achei que seria mais fácil, mas estou aprendendo que essa transformação não virá da noite para o dia. O que posso dizer é que estou fazendo a minha parte, assumindo minha responsabilidade.

Comércio - Com o que tem enfrentado, não tem medo de morrer?
Pitt -
De morrer, não. Tenho medo de não conseguir fazer tudo o que sempre sonhei e agora estou tendo a oportunidade. Temo mais pela vida da minha família. Porque mesmo que eu morra, o passado não vai voltar. Aquele grupo não voltará ao poder. Esse processo que começamos agora não vai parar com a minha morte. Então, o jeito é lutar, é trabalhar.

Comércio - Quando o senhor fala em passado, se refere ao grupo do ex-prefeito Clarindo Ferracioli, o Belão, que morreu num acidente em 2010?
Pitt -
Exatamente. Infelizmente, ele já está morto. Ele não tem como voltar, porque se essa possibilidade existisse eu é que já estaria morto. Acho que a tendência é que essas ameaças e intimidações parem. Eles precisam entender que estão errados.

Comércio - Há anos existe na política de Restinga essa rivalidade entre o grupo do senhor e o do Belão. Como nasceu essa disputa?
Pitt -
Da vontade de fazer justiça. Não posso concordar com o que existia aqui. Mas o poderio deles é muito grande. Eles pressionam, eles intimidam. Já haviam feito isso antes. Na eleição de 2004, quando minha mulher [Ana Pitt, ex-vereadora] disputava a Prefeitura, roubaram tudo na minha casa. Já conheço o jeito deles.

Comércio - O senhor sabe quem são. Por que não denuncia à polícia?
Pitt -
Porque a coisa não é simples assim. Você não consegue provar, nem pegá-los. A escravatura no Brasil levou 300 anos para ter fim. A ditadura militar duas décadas. A gente tem que ver que algumas coisas levam tempo para acabar.

Comércio - O senhor acredita que possa haver paz na política de Restinga?
Pitt -
Acho que a tendência é uma acomodação. Acho que esse processo de transformação não tem volta. Ou eles [o grupo do ex-prefeito Belão] mudam ou não vão sobreviver dentro da política.

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