O tempo de conversão é este que estamos vivendo: a quaresma
Muitas vezes achamos que tudo está perfeito dentro da nossa vida. Puro engano. Sempre existem coisas que precisam ser revistas e transformadas. O terceiro domingo do tempo quaresmal vem nos ajudar, pela Palavra de Deus, a encarar, de forma natural, o tema da “conversão”. Vejamos o que Deus quer nos falar.
1ª LEITURA — ÊXODO 3
Israel conheceu seu Deus, sobretudo, como “libertador”. Só mais tarde descobriu que ele era também pai, mãe, esposo, rei, pastor, guia, aliado... O trecho inicia-se apresentando-nos Moisés pastoreando o rebano do sogro no monte Horeb, no Sinai. Deus lhe diz: “Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi seus clamores por causa dos seus opressores. Sim, eu conheço os seus sofrimentos e desci para os livrar das mãos dos egípcios”.
Moisés entende que o Senhor precisa dele. Percebe que veio para tirá-lo dessa vida simples e tranquila que está vivendo há alguns anos. Parece que está querendo envolvê-lo em conflitos dos quais ele queria se ver livre. Mas como recusar-se a atender a uma convocação do Senhor? Moisés levanta uma objeção: “Eu irei aos israelitas e lhes direi: o Deus dos vossos pais me enviou até vós. Mas se eles me perguntarem: Qual é o seu nome? O que é que eu lhes direi?”
Deus responde a Moisés: ‘dirás aos israelitas: eu sou aquele que sou, ou melhor, eu serei aquele que serei’. Por que Deus quer ser chamado com um nome tão estranho? O que significa este nome que ocorre mais de 6,7 mil vezes na Bíblia? Significa: vós entendereis quem eu serei; vereis por aquilo que farei quem sou eu.
E o que verão os israelitas? Certamente não um Deus que fica tranquilo no paraíso, ocupado em manter sob controle a contabilidade dos pecados, que não quer ser incomodado, que não se importa com o que acontece na terra.
O Deus que se revela a Israel é um Deus que participa com paixão dos problemas do seu povo, que não tolera a opressão sobre os fracos, que intervém para “libertar”.
Deus, hoje não mudou de nome. Ele é sempre aquele que é sensível aos gritos de quem sofre, que continua sendo o “libertador”. Não exigirá também de nós, como de Moisés, que nos tornemos libertadores dos nossos irmãos?
Se as lágrimas e os gemidos dos irmãos nos deixam insensíveis, se o clamor dos oprimidos não nos impele a fazer alguma coisa em favor deles, podemos afirmar-nos filhos daquele que se revelou como o “Libertador”?
2ª LEITURA — 1ª CARTA CORÍNTIOS 10
A comunidade de Corinto é bastante fervorosa. Entretanto, como acontece em todos os lugares, há também alguns aspectos negativos: discórdias, imoralidades, invejas. Alguns desses acham que é suficiente o batismo para ter certeza da própria salvação. Paulo percebe que os cristãos de Corinto estão se embalando numa perigosa ilusão.
O mesmo pode acontecer aos cristãos. Devem lembrar-se de que os benefícios de Deus não operam de maneira automática e quase mágica. Não basta ter acreditado em Cristo (novo Moisés), ter sido batizados (a passagem do mar Vermelho), ter recebido o Espírito (a proteção da nuvem), ter-se alimentado da Eucaristia (o pão e o vinho correspondem ao maná e à água do deserto). É preciso levar uma vida coerente, caso contrário os cristãos também poderão perder-secomo aconteceu aos israelitas no deserto.
EVANGELHO — LUCAS 13
Na primeira parte desta passagem nos são relatados dois acontecimentos históricos: um crime cometido por Pilatos e o desabamento de uma torre ao lado da piscina de Siloé. Alguém vai contar a Jesus o acontecimento. Talvez imagine que pode arrancar da sua boca uma severa declaração de condenação, uma tomada de posição anti-romana. Talvez pretenda envolvê-lo numa revolta armada. Diante de um crime tão hediondo, certamente não se limitará a pedir paciência, ou até mesmo a perdoar! Pelo menos fará uma dura declaração contra Pilatos.
Jesus não se pronuncia diretamente a respeito do massacre cometido por Pilatos: não quer se deixar envolver naquelas inúteis conversas, que se reduzem a imprecações e maldições. Ele, com certeza não é insensível aos sofrimentos e aos infortúnios, comove-se até as lágrimas por amor à sua pátria (quem de nós já não derramou lágrimas pelos graves problemas que a nossa pátria tem que enfrentar?). Entretanto sabe que não levam a nada, e até são contraproducentes a agressividade, a indignação, a raiva, o ódio e o desejo de vingança. Estes sentimentos só conduzem a atitudes precipitadas, que só complicam ainda mais a situação.
Quando devemos executar a mudança? Podemos adiar por alguns meses, por alguns anos? Jesus responde a estas perguntas na segunda parte do Evangelho de hoje com a parábola da figueira. Na Bíblia, fala-se muitas vezes desta planta que, duas vezes por ano, na primavera e no outono produz frutos saborosos. Em tempos muito remotos, simbolizava a prosperidade e a paz. No deserto do Sinai os israelitas sonhavam com uma terra, rica em nascentes de água, trigais e ... figueiras.
O ensinamento da parábola é claro: daquele que ouviu a mensagem do Evangelho, Deus espera frutos saborosos e abundantes. Não quer práticas religiosas externas, não se satisfaz com aparências (na primavera a figueira produz frutos antes mesmo de brotarem as folhas), procura obras de amor.
Diversamente dos outros evangelistas que nos falam de uma figueira estéril, que secou na mesma hora ou pouco depois, Lucas, o evangelista da misericórdia, fala de mais um ano de espera, antes da intervenção definitiva.
Ele apresenta um Deus paciente, tolerante com a fraqueza humana, compreensivo com a dureza da nossa mente e do nosso coração.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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