O governador do principal Estado do País começa a despachar por volta das 7 horas da manhã. Dificilmente deixa o seu gabinete antes das 23 horas. A rotina de Geraldo Alckmin (PSDB) é essa, inclusive aos sábados. As poucas horas de lazer são restritas aos domingos e somente depois de assistir à missa.
O dia do homem que governa para os habitantes dos 645 municípios de São Paulo é ocupado por audiências, assinaturas de documentos, visitas, reuniões políticas e tomadas de decisões, muitas delas complexas, como a que implantou o programa de internação involuntária de dependentes de drogas no Estado e a que proíbe a polícia de socorrer vítimas de crimes.
Entre um compromisso e outro, o governador que obteve quase 40 milhões de votos nas eleições para a presidência da República em 2006 e que terá papel fundamental na disputa do cargo no ano que vem, concede concorridas entrevistas coletivas para os principais órgãos de comunicação do Brasil.
Entrevistas exclusivas são bem menos comuns, mas Geraldo Alckmin abriu as portas do Palácio dos Bandeirantes para o Comércio da Franca. No dia 21 de fevereiro, durante quase duas horas, ele conversou com os jornalistas Corrêa Neves Júnior e Edson Arantes. O governador falou de sua rotina na sede do governo paulista, detalhou a ofensiva que está lançando contra as drogas no Estado, criticou o PT por ter antecipado a disputa eleitoral de 2014 e classificou de “grande demonstração de humildade e sabedoria” a renúncia do papa Bento XVI.
Alckmin, que é médico, também foi questionado sobre a crise financeira da Santa Casa de Franca, comentou a falta de laudos de segurança nas 62 escolas estaduais da cidade, deu um alento aos comerciantes do Leporace, falou dos investimentos no Aeroporto da cidade e revelou a intenção de passar um fim de semana em Franca para ir visitar o Carmelo de Santa Teresa.
O governador anunciou um pacote milionário de recursos para serem investidos em melhorias das estradas que cortam Franca. “Só na região ‘da’ Franca serão R$ 736 milhões de investimentos nas rodovias, entre obras em andamento e obras previstas.”
Comércio da Franca - No dia 21 de fevereiro fez um mês que o senhor lançou o programa de internação involuntária de dependentes químicos em São Paulo. Qual avaliação o senhor faz do primeiro mês da medida e das críticas que a iniciativa tem recebido?
Geraldo Alckmin - A avaliação é muito positiva. Estamos empenhados nesta questão, que acabou se tornando uma questão de saúde pública. É um problema recente. O crack chegou ao Brasil em 1990 e, hoje, está presente em 90% dos municípios. É uma droga que vicia rápido e é mais barata. As grandes vítimas são os jovens de famílias mais pobres, desestruturadas e de menor escolaridade. Então começamos com um trabalho pioneiro em São Paulo unindo o Poder Judiciário, o Ministério Público, a OAB, a Defensoria e as equipes de saúde. Criamos quase 300 vagas já na rede própria do Estado e na rede contratada. Chegaremos a 1.400 vagas até o ano que vem. O atendimento ambulatorial é através do Caps-AD, que é o Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Droga, que é da prefeitura. Nós ficamos na retaguarda social com as casas de acolhimento, casas transitórias, comunidades terapêuticas e hospitalização. Em relação às críticas, o que a gente percebe hoje é que o Brasil é o País que premia a omissão. Se você não faz nada em relação ao crime, não é criticado por ser truculento, se você não prende, não é criticado por as cadeias estarem superlotadas, se não age, não é criticado porque feriu direitos individuais. Fato é que o problema é gravíssimo. Estamos criando uma rede paulista de combate à dependência química, mas a tarefa é coletiva. Precisamos ter junto as prefeituras.
Comércio - Qual deve ser o papel dos municípios?
Alckmin - O município precisa fazer o primeiro trabalho. O trabalho de emergência é com a prefeitura, pronto-socorro e atendimento ambulatorial. Não podemos voltar para o passado daquela internação desmedida. Isto vai contra os mais importantes princípios da medicina. A prefeitura deve fazer a abordagem ativa e o trabalho ambulatorial, que é o Caps. Nós [Estado] entraremos com todo o trabalho de retaguarda, acolhimento e hospitais. Não vão faltar vagas, mas não podemos é ter a visão de que todo caso de dependente químico precisa de internação. Precisa é de tratamento. A necessidade de internação é uma decisão médica. Muitas vezes, a família quer internar para ficar livre do problema ou, quando [a pessoa] tem alta do hospital, não quer receber. É um problema mais de natureza social. Precisa ter cuidado para não transformar internação hospitalar em solução de caráter social. A internação é para casos específicos e mais graves. Temos de saber diferenciar: uma coisa é polícia, segurança. Outra coisa é saúde. Na área de polícia, temos de cuidar melhor de nossas fronteiras, que estão livres para o tráfico de drogas e armas.
Comércio - Qual é a responsabilidade do Estado?
Alckmin - A primeira coisa que tem de fazer é colocar polícia de fronteira para controlar a entrada de drogas e armas. São Paulo produz laranja, produz café, produz cana-de-açúcar. Não produz cocaína. Depois é preciso a ação da polícia local para identificar e prender os traficantes. O outro ponto é a atenção aos doentes, que estão cada vez mais jovens. Não há nenhuma hipótese do Estado agir na ponta. São 645 municípios. Ou o município atua na ação direta ou não vai resolver. Só nós estamos trabalhando no Brasil. Não tem uma ação federal ou estadual em lugar nenhum. Quem é que está criando vaga para dependentes químicos? Nenhum lugar. O Estado não tem como fazer busca ativa em todos os municípios. Cada município deve ter sua ação de saúde local e fazer o tratamento ambulatorial. Se precisar internar, nós vamos entrar com a retaguarda hospitalar. Na maioria dos casos, a família concorda com a internação. Então, não precisa ter internação compulsória.
Comércio - Em Franca, são registrados pelo menos quatro roubos todos os dias. Até casos de sequestros-relâmpagos estão se tornando comuns. Como conter o crescimento da violência e vencer a guerra contra o crime organizado?
Alckmin - Tivemos em Franca, no ano passado, aumento de homicídios comparando-se com o ano anterior. Tivemos redução de roubos a bancos e redução de latrocínio. Foi apenas um caso de latrocínio. Não houve nenhum caso de roubo de carga. Os casos de lesão corporal caíram 8%. Precisamos verificar porque o número de homicídios cresceu. No Brasil, temos 23 homicídios por cem mil habitantes. São Paulo tem dez de média. Em Franca, foram 5,5 homicídios para cada cem mil. É índice europeu. Temos a maior força policial do País. Estamos chegando a 140 mil policiais. Temos 22% da população brasileira e estamos chegando a 40% dos presos do Brasil. São Paulo é o único Estado que prende. Aumentou três mil presos em 40 dias. Os nossos indicadores, que são os menores do País, vão cair ainda mais. Pode ter certeza.
Comércio - A bancada paulista do PSDB apresentará um pacote de projetos à Câmara Federal para tentar inibir a criminalidade. Uma das propostas prevê mudanças nas penalidades aplicadas aos menores de idade. O senhor defende maior rigor na legislação?
Alckmin - Nós estamos liderando este trabalho. Acho que a legislação brasileira está totalmente equivocada. Defendemos três mudanças importantes: hoje, o menor de 18 anos que cometer um, dois, três, quatro ou cinco crimes não passa de três anos preso e sai com a ficha limpa. Defendemos que, em casos graves, possa chegar a oito anos a privação de liberdade. Segundo, não tem nenhum lugar do mundo que você com 21 anos fica na Fundação Casa. Não é nem criança, nem adolescente, mas fica [junto com os menores]. No mundo inteiro, completou 18 anos, o juiz analisa: pode ir para casa, vai. Não pode, é penitenciária, área isolada. Cada vez mais a gente vê crimes violentos sendo cometidos por menores de 18 anos. Outra medida que propomos é a seguinte: crime cometido contra agente de Estado, contra a polícia, deve ter um agravamento de pena. O projeto de lei está sendo fechado para apresentarmos no Congresso. Vamos recolher o máximo de assinaturas de deputados de vários partidos políticos e fazer uma trabalho nacional dizendo: ‘olha, nós precisamos atualizar a nossa legislação’. Hoje é a legislação da impunidade. Você não corrige se não tiver limites.
Comércio - No mês passado, o Comércio da Franca publicou reportagem sobre investigação feita pela Promotoria de Habitação e Urbanismo revelando que 133 escolas, sendo 62 estaduais, não têm laudos de segurança. Os principais problemas são falta de extintores, hidrantes, saídas de emergência e rampas. Tão logo aconteceu a tragédia em Santa Maria, o senhor determinou que os bombeiros fiscalizassem todas as boates no Estado. As escolas também não merecem atenção semelhante a essa?
Alckmin - Sem dúvida. Aliás, em uma reunião com o secretário da Educação, traçamos um plano de ação para isso e estamos determinando que ele faça um mutirão neste sentido. Claro que a situação das escolas é diferente de muitas casas noturnas que, normalmente, só têm uma entrada e saída, mas queremos todas as escolas dentro dos rigores [da lei]. Estamos elaborando um plano de ação para regularizar todas as unidades da rede de ensino estadual, incluindo as de Franca.
Comércio - A Santa Casa de Franca alega ter uma dívida de R$ 60 milhões. A direção diz que o déficit mensal gira em torno de R$ 2,5 milhões e culpa o Estado e o governo federal pelo desequilíbrio financeiro. Qual é a parcela de culpa do governo nesta crise?
Alckmin - A dívida não é privilégio da Santa Casa de Franca. O endividamento das filantrópicas em todo o País cresce em média 15% ao ano. Em 2004, a dívida das Santas Casas era R$ 1,8 bilhão. Em 2009, saltou para R$ 5,9 bilhões. No ano passado, deve ter fechado com R$ 15 bilhões. Por que? Porque a tabela do SUS não é corrigida há quase dez anos. O governo federal, que é quem tem mais recursos, que se apropria da maior parte dos impostos que a população paga, praticamente está saindo da saúde. Há 15 anos, o SUS financiava 60%; hoje são 40%. Todo ano tem aumento de salário, remédio, alimento, limpeza, entre outros gastos, e a tabela SUS não é corrigida. Alguns hospitais conseguem sobreviver porque têm convênios maiores. Quem não tem, vai acumulando dívidas.
Comércio - Se o problema é a tabela SUS, por que o governo federal não corrige o valor dos pagamentos?
Alckmin - Governar é escolher. O governo federal não escolheu a saúde. Fato é que os recursos vão minguando na contramão da necessidade da população, que está envelhecendo. Acompanhei as eleições municipais do ano passado. Antigamente, os prefeitos de cidades pequenas tinham como prioridade o emprego. Os das cidades grandes priorizavam a segurança. Hoje, os pequenos, médios e grandes estão preocupados com a saúde. É um problema nacional. O Estado tem mais de 90 hospitais. Qual hospital o governo federal tem? Nenhum.
Comércio - Há uma negociação para que o Estado assuma o controle da Santa Casa de Franca. Como estão as negociações?
Alckmin - Queremos, além de apoiar as Santas Casas e corrigir a tabela do SUS, ter uma retaguarda, uma referência do Estado em cada região. A secretaria de Saúde já está estudando. Uma alternativa é regionalizar. Neste caso, a gestão continua com a Santa Casa, mas passa a ter uma cobertura regional com o Estado financiando. Outra possibilidade é estadualizar. Neste modelo, a Santa Casa passaria a ser um hospital do Estado e nós assumiríamos a gestão definitiva. O importante é que Franca terá um hospital estadual de caráter regional. A forma de fazê-lo ainda vamos decidir.
Comércio - O governo seguirá adiante com a decisão de derrubar as lojas irregulares nos prédios construídos pela CDHU no Parque Vicente Leporace?
Alckmin - No fundo, qual é o problema? Não é que a CDHU queira retirar as pessoas, tem uma ordem judicial [para isso]. O projeto alternativo apresentado pela associação dos moradores [de revitalizar as lojinhas sem derrubá-las] foi considerado inviável. Agora, o processo está em fase de conclusão para a apreciação do juiz. Nossa intenção é fazer a revitalização nos módulos que não têm comércio. E aí, isso servirá de exemplo dos benefícios e das vantagens de regularizar tudo para buscar uma solução amigável. Na medida em que acabou o “gato”, regularizou o gás e a parte elétrica, tem laudo do bombeiro, revitalizou o prédio e tem escritura, as pessoas vão ver os benefícios de estar dentro da lei. Com isto, você pode diminuir a resistência.
Comércio - Durante congresso do Coman (Consórcio dos Municípios da Alta Mogiana), em junho de 2011, o senhor disse que a Rodovia Cândido Portinari seria duplicada entre Franca e o trevo de acesso a Jeriquara. Por que a obra ainda não foi feita?
Alckmin - Nas próximas semanas, vamos entregar dez quilômetros de recapeamento entre Rifaina e Pedregulho. Até maio, a obra da duplicação de Franca a Jeriquara estará licitada e, no segundo semestre, iniciada. Também vamos fazer o recapeamento e a modernização do trecho entre Jeriquara e Rifaina. Agora em março vamos lançar o edital para duplicar um trecho de seis quilômetros de Franca ao Distrito Industrial [saída para Restinga]. A obra começa já em julho. Ainda vamos modernizar 40 quilômetros de Franca a São Joaquim da Barra. Será feito recapeamento e implantação de terceiras faixas. Outra boa notícia é que vamos recuperar o asfalto que já existe e asfaltar o trecho de terra na SP 336 [Rodovia Rionegro e Solimões, antiga Franca/Batatais]. A licitação acontece em julho e a obra deve iniciar em dezembro. Só na região ‘da’ Franca serão R$ 736 milhões de investimentos na rodovias entre obras em andamento e obras previstas.
Comércio - O senhor tentará a reeleição ou vai disputar a presidência da República no ano que vem?
Alckmin - O que temos de fazer hoje é trabalhar e fazer um trabalho bem feito com honestidade e eficiência. Sempre digo: eleição é em ano par. Nós estamos em ano ímpar.
Comércio - O ex-presidente Lula não concorda com isso. No dia 20 de fevereiro, ele antecipou o processo eleitoral e lançou a presidente Dilma Rousseff como candidata à reeleição. A estratégia petista está certa ou equivocada?
Alckmin - Equivocada. Antecipar processo eleitoral encurta o governo, começa a acabar o governo. Então, não é adequado. Acho que eleição é para ser discutida no ano que vem. Agora temos que suar a camisa e trabalhar.
Comércio - O nome do senador Aécio Neves é o mais cotado para disputar a presidência pelo PSDB. Ele terá o seu apoio?
Alckmin - O Aécio é um grande nome, mas esta é uma decisão coletiva. Nós defendemos o seguinte: se tiver mais de um pré-candidato, que sejam feitas as prévias. Temos que entrar em 2014 com o candidato definido.
Comércio - O ex-prefeito Sidnei Rocha participará de seu governo?
Alckmin - O Sidnei Rocha foi convocado para trabalhar com a gente. Só precisamos decidir se será de uma maneira presencial todos os dias no governo ou por meio dos órgãos de conselho. Ele foi um dos melhores prefeitos do País e será um prazer tê-lo em nossa equipe.
Comércio - O senhor tem forte ligação com a religião católica e frequenta missas praticamente todos os domingos. Como avalia a renúncia do papa Bento XVI?
Alckmin - A responsabilidade do papa é muito grande, é um chefe de Estado. É importante a presença do papa no mundo e a gente percebia a dificuldade que ele tinha de se locomover, dificuldades com a saúde. O Bento XVI teve um ato de humildade e sabedoria ao se afastar e permitir que um novo papa possa assumir e ter uma atuação mais efetiva no sentido de evangelização.
Comércio - Como é morar no Palácio dos Bandeirantes?
Alckmin - Você vive no trabalho, permanece 24 horas de plantão. Tem uma vantagem: o problema dos grandes centros é a mobilidade urbana. Aqui, você atravessa um corredor e está em casa. Saio daqui às 11 horas da noite e mesmo chegando às 7 horas da manhã, consigo ver a família.
Comércio - O senhor acha que o Palácio é confortável?
Alckmin - Tem o conforto da proximidade. Trouxe mobílias de casa e criamos um ambiente mais próximo da família, mas é um prédio da década de 50, feito não para ser residência, mas facilita.
Comércio - O senhor tem expediente nos fins de semana ou aproveita para descansar?
Alckmin - Todos os sábados trabalho. Sempre tenho atividades aqui, na região metropolitana ou em municípios do interior. Aos domingos, às vezes, tenho algum trabalho, mas sempre tiro uma parte para a família e para ir à missa.
Comércio - O senhor nunca é visto fazendo programas típicos dos paulistas, como ir ao shopping ou comer em alguma pizzaria...
Alckmin - Geralmente quando vou para o interior, durmo na última cidade e vou a alguma pizzaria. Como bom paulistano, adoro uma pizza. Também vou ao shopping com a dona Lu [sua mulher]. Sempre que possível, procuro dar uma escapadinha. No Carnaval, fui para Pindamonhangaba [terra natal do governador] e me escondi lá na chácara, fiz uma grande leitura [do livro sobre psiquiatria e crack do autor Ronaldo Laranjeira]. O mais importante é fazer do trabalho também uma alegria. O trabalho também nos realiza. A maior vocação do homem e da mulher é servir as pessoas.
Comércio - Quando voltará a Franca?
Alckmin - Vou a Franca em breve, a cidade tem o melhor café da região. Em uma próxima viagem, devo dormir ‘na’ Franca. Quero, em um domingo de manhã, já combinei com o doutor Fábio Meirelles [agricultor e presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo], ir ao Carmelo [Santa Teresa], das irmãs. Minha ideia é ir num sábado, ‘fazer’ a região, dormir ‘na’ Franca e, domingo, ir ao Carmelo.
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