Cinquenta anos atrás, no dia 22 de fevereiro de 1963, morria na cidade de São Paulo, aos 65 anos, o escritor, poeta e jornalista francano Antonio Constantino. Ele lá vivia desde 1934, quando deixou a redação do jornal Comercio da Franca para dirigir a biblioteca da Faculdade de Direito da USP. Como chegou lá é uma de muitas histórias desse intelectual francano do século passado que não pode, pelo bem da identidade francana, ser esquecido. Que deve e merece ter a história resgatada pela sua importância na vida cultural e intelectual de da cidade.
Para o Largo de São Francisco Antonio Constantino foi quando o então interventor do Estado (denominação dada ao chefe de governo do Estado antigamente), Armando Sales de Oliveira, visitou Franca, em campanha eleitoral na disputa pela presidência da República. Num comício, Constantino impressionou Sales de Oliveira com sua oratória na saudação que fez à primeira dama. E foi então que recebeu o convite do interventor para se mudar para São Paulo.
Nos anos que na terra das Três Colinas esteve, este francano deixou valiosa contribuição ao mundo das letras. Chegou, inclusive, a fazer parte da Academia Paulista de Letras. Um poeta completo e, nas palavras do professor e escritor francano Luiz Cruz, “o melhor que Franca produziu”.
Alimentou a paixão pelas letras desde cedo, quando foi aluno do professor Sabino Loureiro, conhecido “orador do povo” e um dos grandes nomes do jornalismo francano. Constantino declarou em entrevista ter sido influenciado por Sabino em sua formação.
Seus pais - Roque e Páscoa Constantino - eram pobres imigrantes italianos. Seu pai era alfaiate. Na infância humilde e modesta, estudou (o que na época não era comum), mas, sem recursos, até furtou livros porque gostava muito de ler e não tinha como comprá-los. Então foi esse o meio encontrado para ter contato - e acesso -com o mundo da literatura. Ele declarou isso em uma entrevista.
Estudou pouco, é verdade, foi autodidata, e tal era seu talento que acabou nomeado professor de português na Escola Normal Livre e, depois, prestando exame específico, foi intitulado “prático” (provisionado) em direito. Foi então que fez defesas incríveis, de acordo com registros de processos em jornais da época em que atuou, livrando os mais “cabeludos” criminosos da cadeia, tal era o seu poder de argumentação. Foi um advogado notório e “com sua voz de tenor”, como descreveu uma matéria de jornal, convencia o júri nas mais difíceis defesas.
O renomado professor e advogado Alfredo Palermo, morto em 2009, declarou que assistindo a uma sessão do júri, em setembro de 1933, presenciou Antonio Constantino tornando-se um “gigante às barras do Tribunal”. Foi quando resolveu o que queria fazer na vida: ser advogado.
No âmbito profissional, Constantino chegou a ocupar, depois de aposentado pela USP, o cargo de diretor do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda de São Paulo.
A ALMA DO JORNAL
Constantino deixou a redação do jornal Comércio da Franca depois de quase duas décadas, quando recebeu o convite do interventor para ir para a capital.
Constantino era a própria alma do jornal. Aos 23 anos, havia assumido a redação. Em edições da década de 20, o nome dele aparece publicado nas primeiras páginas do Comércio, como “redactor: Antonio Constantino”, ao lado do “director-proprietario: Vicente Paiva”.
Se hoje não é fácil publicar um livro, imagine-se nas primeiras décadas do século passado. Era através da imprensa que os escritores tinham oportunidade de exercer sua arte, chegando aos seus leitores através das redações dos jornais.
Usando diversos pseudônimos como João da Franca, Fra Diavolo e Hélios escrevia praticamente todos os textos das edições do jornal. Constantino escreveu sonetos entre 1921 e 1922 sobre as mais diversas personalidades francanas, inclusive sobre si mesmo, também assinando com pseudônimos. A seção era publicada na capa e chamava-se Caras e caretas.
Crítico e combativo, no primeiro texto que assinou como João da Franca criticava livro de escritor belga, uma espécie de assessor imprensa do governo de lá, que tinha acompanhando o Rei Albert em visita ao Brasil. Ao retornar a seu país, em seus escritos, ele desabonava os hábitos brasileiros. Irritado, Constantino dizia: “que sirva de exemplo ao presidente da República, que não mediu esforços para receber o rei (...). E para que tanta loucura? Para sermos insultados (...) por esse cáfila aqui vem, encher o bandulho de banquetes e homenagens e depois extravasar toda sua bílis contra nós, somente porque somos um povo destemido e uma terra dotada das riquezas mais deslumbrantes criadas pela natureza? Despeito e nada mais!”
Se o escritor Constantino era chamado de príncipe dos intelectuais francanos no Almanaque Histórico de Franca de 1943, o jornalista Constantino é aclamado como um dos melhores de sua época. Era capaz de análises muito lúcidas. Exemplo é quando termina em 1918 a primeira Grande Guerra e, numa crônica intitulada Estamos em paz?, ele previa os acontecimentos seguintes à conclusão do conflito: a Alemanha derrotada criou uma geração de ultra direita baseada no ódio e na vingança contra os países da tríplice Entente, que acabou culminando no regime nazista e no segundo grande conflito mundial.
EM ESTROFES
Os primeiros poemas publicados de Antonio Constantino eram inflados de amor pela terra natal. Terra Morena e Este é o Canto de Minha Terra foram aclamados pelos críticos da época. Como romancista, publicou os trabalhos Embrião e A casa sobre areia. Constantino sustentou que a imagem que se tinha sobre a vida do povo de São Paulo era deturpada pelos costumes da capital e era necessário conhecer também os traços de brasilidade presentes no interior do Estado. Para justificar sua obra localista e realista, dizia: “o toque de localismo está, em verdade, nos costumes, nas cenas e nas criaturas que A casa de areia (seu livro) relata. O caboclo de cá identifica-se com o cabra do norte nas suas angústias e nos seus dramas.”
REVOLUÇÕES
“Ei, paulista?! Ah, então tu me compreendes! Trazes como eu, o luto na tua alma e lâminas de fel no coração. Ferve em teu peito a cólera sagrada, de quem recebe, em face a bofetada, o insulto, a vilania, a humilhação.” Com esse texto, no dia 24 de julho de 1932, o Comércio da Franca conclamava os francanos a reagirem e se alistarem para participar da Revolução Paulista, a Revolução Constitucionalista de 1932.
O Estado de São Paulo estava descontente com a política do presidente Getúlio Vargas, que, entre outras medidas, havia nomeado um interventor não paulista para o Estado e suprimido a Constituição de 1891, prometendo uma nova Carta, o que não fez. O movimento eclodiu com a morte de quatro jovens na cidade de São Paulo, que haviam invadido a sede do PPP (Partido Popular Progressista) dando origem ao MMDC, iniciais dos rapazes mortos, Miragaia, Martins, Drauzio e Camargo. Com a promessa de apoio de outros estados, as tropas clandestinas paulistas tomaram posição. Em 9 de julho aconteceram os primeiros combates no Vale do Paraíba.
A Revolução estendeu-se por três meses e terminou com a derrota das forças paulistas. Mas, Vargas adotou uma atitude conciliatória, convocando eleições para a escolha dos deputados que comporiam a Assembléia Constituinte para maio de 1933.
É preciso lembrar que Franca estava entre os maiores produtores de café do Brasil, o que deixava a cidade mais propensa ao envolvimento na batalha. Também o segmento comercial da cidade se rebelava contra a determinação de horário de funcionamento dos estabelecimentos.
Mas as palavras e o esforço de Antonio Constantino para que os cidadãos francanos se envolvessem no combate tiveram um peso fortíssimo, arregimentando muitos jovens. Ele próprio se tornou oficial e foi patenteado como tenente revolucionário.
Dois anos depois da Revolução foi convidado pelo interventor Armando Salles de Oliveira para dirigir a biblioteca da Faculdade de Direito da USP.
LIGAÇÕES COM FRANCA
Antonio Constantino nasceu em Franca em 1898 e morreu em 1963. Treze anos depois, foi homenageado postumamente como patrono de uma escola municipal de ensino supletivo. A unidade foi inaugurada na Vila Europa e depois transferida para o Colégio Champagnat. Esta escola não existe mais.
Antonio Constantino casou-se duas vezes, teve três filhos. Um morreu ainda jovem e os outros dois não permaneceram em Franca. Um teria se mudado para Londrina (PR) e o outro viveria em São Paulo. As lembranças dele estão concretizadas nas páginas dos jornais e produções textuais a que tanto se dedicou.
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