Abordou-me pessoa que me era desconhecida. Estabeleceu, sem que tivesse eu qualquer chance de interromper aquela aproximação, o monólogo que abaixo transcrevo. Tomei-o como um desabafo, um desagravo, como um abraço de náufrago subitamente diante da perspectiva de salvação. Ouvi-o com meu coração e procuro aqui reproduzi-lo abarcado de toda a sua veracidade. Se algo omiti, ou esqueci, perdoe-me. Minha memória é curta e, meus ouvidos, pouco aptos para ouvir palavras tais como as que ouvi. Compartilho-as por não saber o que fazer com elas.
Guarde-as para mim.
“Quando menos esperava, algo em mim amanheceu. Foi como se a escuridão de um silêncio ou o cinza de uma incerteza fossem aos poucos bebendo goles de Sol. Meu Leviatã se recolheu, levou meus medos e fragilidades para recantos profundos do meu ser, enclausurou-se em lugares pouco visitados. Penso que o monstro, saciado de tanto me entristecer, adormeceu.
De posse de um pouco de mim, pude conhecer compartimentos nunca antes vistos: castelos de sonhos feitos por mãos inseguras que, a exemplo de Penélope, os desfizeram para não enfrentar desafios. Olhei o espelho descorado dos desencantos e vi ali, registrados de maneira impossível de serem apagadas todas as coisas que poderia ter vivido, mas não vivi.
Entretanto, em parede oposta, figurava cada dia que perdi, cada minuto que joguei fora, cada situação tola que consumiu minha energia, minha chama, minha essência.
Meu parco espólio: meus pecados, meus sonhos e um lume, um lume translúcido que se opõe a esses gestos de desatenção para com a minha vida. Traço mentalmente as linhas de um possível testamento, de um testemunho viável, de uma conversa franca com o tabelião de minha existência.
O que levarei dessa vida? Pouco, muito pouco. A bagagem precisa caber na alma e como se bem sabe, a matéria etérea que a constitui não deixa muita margem para certezas em relação a volumes e quantidades. Assim, separo aos poucos o que acredito ser indelével.
Coloco dentre minhas escolhas: um seu olhar, o aconchego do seu abraço, a leveza do seu sorriso, o som da sua risada, a suavidade dos seus passos nos momentos em que você está feliz, a intensidade da sua alma, a sua sinceridade e um pouco da sua tormenta para dar um tempero minimamente humano aos meus tesouros.
E se não for demasiado ambicioso, o frescor de um beijo roubado sob a luz do luar...
Entretanto, não pense que declaro o meu espólio por conta de romantismos ou embates de natureza semelhante. Não! Certamente, não. A causa é bem outra. Temo que seja, inclusive, egoísta: quero reviver, todas as vezes que puder, a experiência do lago profundo do amor intenso. Quero descobri-lo e entendê-lo em todas as dimensões. Quero descortinar os paradoxos do amor imenso, embrenhar e emaranhar-me na floresta escura enfeitada por sensações caleidoscópicas que, quando menos se espera, revela-nos deleites e sensações adormecidas.
Por isso, mais do que amar, preciso entender o amor. Compreender o turbilhão que se disfarça na voz amada que me diz: boa noite!”
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