A inflação é um dos graves problemas que a economia brasileira tem pela proa. Debelada em 1994 pelo Plano Real, permitiu ao País ingressar no mundo civilizado das moedas estáveis e participar da economia global que começava, então, a tomar corpo. Assim vivemos até 2008. Em 2009, com a mudança dos ventos da economia mundial, começou, de novo nossa (surda) luta contra inimigos que conhecemos muito bem, o pequeno crescimento do PIB e a inflação.
Atualmente, a orientação econômica do governo está baseada em três pontos: metas de inflação, geração do chamado superávit primário (arrecadação total maior que as despesas, antes dos gastos com juros e correção monetária de dívidas) e câmbio flutuante. Com isso, a economia vai sendo tocada com estímulos ao consumo interno via facilidades na concessão de crédito (até o limite tolerável da inadimplência), seletivas desonerações tributárias e um controle sub-reptício no câmbio.
Dada a carga de perigo que a inflação traz consigo, é preciso ficar alerta. Os últimos índices divulgados levaram o Presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, a declarar que ‘há um desconforto com o crescimento da inflação’. Podemos ir além, aduzindo que não é só desconforto. É, sobretudo, preocupação. As metas de inflação, objetivo claro e salutar de política econômica, têm sido pouco ambiciosas no que diz respeito a resultados pretendidos. O chamado ‘centro da meta’ ficou, nos últimos anos, em torno de 4,5%, podendo, segundo as autoridades, variar entre 2,5% para baixo e 6,5% para cima. Faltam rigor e ambição na fixação dessas medidas.
O valor alcançado em janeiro último pelo IPCA, calculado pelo IBGE, reforça a preocupação: cresceu 0,86%, o mais alto desde abril de 2005. Nos últimos 12 meses, os preços (já) subiram para 6,15% que deixa o valor do índice bem próximo da meta (6,5%) para 2013. Os mais prejudicados são os que pertencem às camadas de menor poder aquisitivo. O item ‘Alimentação e Bebidas’ apresentou elevação da ordem de 1,99%, mais do que o dobro do índice geral.
Quanto à geração do superávit primário, o que se viu no final do ano foi verdadeiro festival de criatividade econômico-fiscal, antecipando lucros de empresas estatais, promovendo saques no Fundo Soberano e outras mágicas contábeis para ‘fechar’ as contas da execução orçamentária com os resultados que se desejava. Haja criatividade!
No câmbio, a situação ainda é uma incógnita. Ao sabor dos pronunciamentos feitos ou das medidas de curto prazo tomadas pelo Ministro da Fazenda ou pelo presidente do Banco Central, as taxas sobem ou descem. Ou seja, há apreciação ou depreciação da moeda nacional, segundo as circunstâncias. Parece que não sabemos para onde vamos. A inflação beneficia poucos e prejudica a maioria. Na conjuntura econômica brasileira atual juntam-se a ela, entre outras, as contribuições do malfadado ‘custo Brasil’, as desventuras contábeis da Petrobrás, as perspectivas pouco alvissareiras da indústria do etanol. Para que que haja controle exige-se ação rápida, enérgica e efetiva das autoridades. Não há espaço e nem tempo para a frouxidão e, tampouco, para o ‘desconforto’ que os índices possam causar.
Vicente de Paula Oliveira
Economista - oliveira.vicente.paula@gmail.com
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