Os quadros na parede do escritório e também na sala de visita são apenas algumas das demonstrações de admiração que o bispo emérito da Diocese de Franca, Dom Diógenes Silva Matthes, 80, tem para com o papa Bento XVI, que deixou oficialmente ontem o papado quase oito anos após ser eleito. As imagens são do papa sozinho; durante encontro com o próprio Diógenes, na companhia do padre Jamil Alves de Souza, que foi administrador diocesano; e na ilustração de uma carta, escrita em latim, enviada a Matthes parabenizando pelos 54 anos de sacerdócio e 40 anos de bispo completados em 2011.
Apesar da idade e das limitações físicas, Dom Diógenes disse que acompanhou o pontificado de Bento XVI e assim, como todo mundo, ficou surpreso com o anúncio da renúncia ocorrida no dia 11 de fevereiro. O bispo elogiou a atitude e também não economizou palavras para descrever o pontífice que ontem se tornou emérito, igualmente como ele. “Tem bispo que não gosta de ser chamado emérito, mas emérito significa que atingimos o limite da idade e estamos livres, sem função na Igreja.”
Sobre o momento da Igreja, classificou os escândalos e denúncias envolvendo padres e bispos como “muitas vezes fictícias” e “feitas para serem contrárias à vida da Igreja”. A respeito da escolha do novo bispo, Dom Diógenes disse que passará os dias rezando e na esperança de o eleito ser “um bom pastor”. Confira abaixo a entrevista:
Comércio da Franca - Dom Diógenes, como o senhor, no papel de bispo emérito, recebeu a notícia da renúncia do papa Bento XVI?
Dom Diógenes Silva Matthes - A sua renúncia foi uma surpresa para toda a Igreja. A atitude do santo padre foi uma atitude de coragem, fé e humildade. Fez aquilo que deveria fazer. Tem idade para renunciar, porque a idade de renúncia para os bispos é 75, como renunciei. Mas papa não fazia isso há 600 anos e agora esse fez, renunciou com 85 anos ao bispado de Roma. O bispo de Roma é o papa, sucessor de Pedro. A palavra papa significa Pedro Apóstolo Príncipe dos Apóstolos, que é P-A-P-A.
Comércio - O que o motivou?
Dom Diógenes - Como diz a própria carta dele, ele se sentiu fraco, debilitado de saúde e o mundo está exigindo cada vez mais saúde, cada vez mais possibilidade de ações. O papa se sentiu enfraquecido e, por isso, diante da sua consciência, como ele mesmo diz, com liberdade, escreveu a carta de renúncia aos cardeais e entregou o cargo nas mãos dos cardeais. Agora eles estão chegando a Roma e farão a eleição do sucessor de Bento XVI. Acho uma atitude normal, poderia ter acontecido outras vezes, aconteceu seis vezes na história da Igreja.
Comércio - As denúncias, os escândalos de homossexualismo e pedofilia envolvendo a Igreja influenciaram o papa a pedir a renúncia?
Dom Diógenes - Essas denúncias podem ter ajudado ele a valorizar, a pensar a atitude dele, mas acho que elas muitas vezes são fictícias, são feitas para serem contrárias à vida da Igreja, mas acho que não tiveram grande influência não. O santo papa renunciou e hoje [ontem], ele volta para o seu retiro espiritual e já anunciou que obedecerá ao novo papa, assim como outro fiel. O título dele será pontífice romano emérito ou papa emérito.
Comércio - O que significa ser um religioso emérito?
Dom Diógenes - Significa que ele chegou ao limite da idade. A idade limite pelo Código Canônico é 75 anos para todas as funções da Igreja, desde o papa até o sacristão. Chegando nessa idade, sempre é aconselhável que a pessoa detentora daquela função apresente a carta de demissão.
Comércio - Após a emeritude, o papa ou bispo perde a função na Igreja?
Dom Diógenes - Ele fica livre. É um bispo, como eu sou bispo e não tenho funções de obrigatoriedade. Não tenho mais a função de administrar nada. Faço aquilo que posso, tenho ajudado aos poucos, principalmente o padre Michel [Rosa da Silva] de Restinga, celebrando missa todos os domingos pela manhã no Carmelo e atendo na Catedral todos os sábados as confissões das 9 às 11 horas.
Comércio - O papa poderá exercer atividades, como celebrar missas?
Dom Diógenes - Sim, pode. Não tem problema. Ele vai continuar escrevendo, pois é um grande escritor. Os escritos dele são no gênio alemão, são escritos difíceis. Ele é teólogo, filósofo, mas tem o temperamento alemão. Eu tenho dificuldade de ler, inclusive, estou lendo um agora, o Jesus de Nazaré - Volume II, mas tem páginas que volto para ler de novo, para captar bem o pensamento dele.
Comércio - Como o senhor avalia o pontificado de Bento XVI?
Dom Diógenes - Foi um pontificado breve, mas muito frutuoso. Até que o santo padre viajou muito, fez muitas viagens nesses oito anos e, na última que fez, ele se sentiu enfraquecido. Mas o papa Bento XVI sempre foi um homem extraordinário, desde que foi eleito. Foi ótima eleição a do cardeal Joseph Ratzinger, que conheci ainda como bispo, como cardeal. Ele era presidente da Congregação da Doutrina da Fé em Roma, durante minhas visitas ad limina, que os bispos realizam a cada cinco anos.
Comércio - O senhor já esteve quantas vezes junto a Bento XVI?
Dom Diógenes - Estive como disse, uma vez quando ele ainda era cardeal e depois já como papa. Foi durante uma dessas visitas [ad limina], a última. É um encontro rápido, dez a 15 minutos, apenas o protocolo. Nessa ocasião, entreguei um sapato para ele. Na verdade, levei sapatos em quase todas as visitas, para o papa Paulo VI, o papa João Paulo II e para o Bento XVI. Entreguei na Praça de São Pedro, inclusive, ele virou o sapato para ver a sola e tal e disse “Esse sapato eu vou usar”, não sei se usou, pois ele deve ter recebido sapatos do mundo inteiro. Foi uma única vez, em 2006, antes de me tornar emérito, durante uma audiência, como essa realizada na última quarta-feira. O encontro aconteceu em junho e eu me tornei emérito em dezembro.
Comércio - Qual a expectativa do senhor para o conclave? Tem um palpite de quem será eleito o novo papa?
Dom Diógenes - Espero que os cardeais eleitores, que também são elegíveis, recebam e estejam com o coração aberto para receber a luz do Espírito Santo e assim possam escolher aquele que Deus já escolheu. Eu não tenho palpite. Vi até uma entrevista do cardeal da Bahia, Dom Geraldo Majella, direto já de Roma, dizendo que não tem nenhum despontado. A imprensa deu que será o cardeal de Milão, pois o último encontro do papa oficialmente foi lá, mas é uma tradição falarem que o cardeal de Milão se tornará papa. Não tenho um nome e, por não ser cardeal, não tenho obrigação de votar (risos) ... Desculpe, não tenho mesmo um palpite, só estou rezando para que os cardeais sejam iluminados na escolha.
Comércio - Em quanto tempo teremos um novo papa?
Dom Diógenes - Diferente das outras ocasiões, o conclave pode antecipar. O papa autorizou que, se todos os cardeais estiverem em Roma, pode começar antes dos 15 dias de prazo. Mas há uma série de reuniões antes deles se reunirem para as votações na Capela Sistina. São 117 cardeais com direito a voto, sendo cinco brasileiros: Dom Geraldo da Bahia; Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo; Dom Cláudio Hummes, que é o arcebispo emérito; Dom Raymundo Damasceno, atual arcebispo de Aparecida; e Dom João Braz, que atualmente mora em Roma, todos com menos de 80 anos. Eles são eleitores e elegíveis do 79º conclave. Vou ficar aqui rezando, esperando pela escolha do novo papa, na esperança de que ele seja um pastor e cuide das ovelhas. Independente de quem seja, a igreja inteira espera que o novo papa seja um bom pastor, o sucessor de Pedro. Pode ser rápido, porém, já houve conclave que se esperou quase três anos.
Comércio - Qual o nome que o novo papa deverá adotar?
Dom Diógenes - A escolha é dele. Estou torcendo para ser João Paulo III, mas é uma torcida particular, coisa do meu coração. Não ouvi nada de ninguém, surgiu. Mas pode ser Bento XVII... Como João Paulo teve dois, acredito que o próximo poderá escolher João Paulo III, tenho esse palpite. O primeiro ficou pouco tempo, apenas um mês e morreu novo, o segundo ficou bastante tempo e se tornou beato, então o nome se fortaleceu com a beatificação do João Paulo II, não sei... O interessante mesmo é que seja um pastor segundo o coração de Deus, isso é o importante. E será o novo papa que escolherá o novo bispo de Franca.
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