Dr. Sócrates


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Tive a oportunidade de escrever parte deste texto por ocasião do falecimento do Dr. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ocorrido em dezembro de 2011. Não foi possível, naquela ocasião, publicar.

No último dia 19 de fevereiro ele, se vivo estivesse, completaria 59 anos. Resolvi, então, terminar estas linhas e remetê-lo a meu editor, no Comércio, para dizer sobre histórias que mostram facetas não tão conhecidas dele.

Falar do Dr. Sócrates não é tarefa fácil. É referir-se a alguém que viveu uma vida relativamente curta, porém intensa.

Ele, sem dúvida, fez a diferença e fez diferente, sempre, e em todas as várias iniciativas às quais se dedicou a exercitar ou apoiar.

Como médico curou mais a alma do que propriamente os males físicos de seus pacientes. Como futebolista, foi um craque reconhecido mundialmente, muito embora ele próprio não se reconhecesse como atleta de alto rendimento.

Como cidadão, ajudou fora do campo de futebol a implantar a democracia em setores onde sempre imperou o totalitarismo e a subserviência. Tive com ele apenas dois contatos pessoais. Em um, o encontro foi casual. Descrevo: eu me encontrava no aeroporto ‘Leite Lopes’, de Ribeirão Preto, fazendo ‘check in’ para viajar a São Paulo.

Ele se encontrava na fila do mesmo guichê em que eu estava. Cumpri com as formalidades e me retirei.

Minutos depois, percebi que ele vinha ao meu encontro apressado e apreensivo, com a minha carteira em uma das mãos. Encontrou-me e foi logo dizendo: ‘você esqueceu a sua carteira no balcão. Tome mais cuidado, pois em um país burocrático, perder os documentos é muito complicado’. Eu me limitei a pegar a carteira e agradecer.

O segundo contato ocorreu quando eu mediava uma questão jurídica envolvendo duas pessoas de seu círculo de amizades.

Certo dia, recebi uma ligação do próprio Dr. Sócrates, e que me surpreendeu. Expressamente, me solicitou que envidasse todos os esforços possíveis para conciliar os dois amigos e se dispôs, inclusive, espontaneamente, e por mera liberdade, a contribuir financeiramente com os dois, se necessário, para ajudar a aparar eventuais arestas e construir o entendimento entre eles.

Em ambos os episódios pude aquilatar sua generosidade, a grandeza do seu coração e o absoluto desprendimento com as coisas materiais, além da importância que ele sempre dava as pessoas e, principalmente, às amizades.

Toda a sua trajetória de vida na medicina, no futebol ou mesmo na política, em especial quando se engajou fortemente e apoiou o movimento por eleições presidenciais diretas no Brasil, acentuam traço marcante de seu caráter: o de se preocupar com os excluídos e os menos favorecidos, dando-lhe vez e voz.

No episódio da chamada ‘Democracia Corintiana’, década de 80, segundo o jogador Vladimir, foi de Sócrates a idéia de dividir igualmente as premiações recebidas dentre todos, dos jogadores mais famosos até ao roupeiro do time.

Sócrates, sem dúvida, dignificou – e muito –, a raça humana.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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