Já aconteceu de tudo nessa novela das ‘lojinhas’ do Leporace. Se fôssemos elencar todos os episódios estapafúrdios e pitorescos que ocorreram nesses últimos anos talvez não conseguíssemos resumi-los nas poucas linhas desse editorial. Da montagem irregular dos pontos comerciais à decisão judicial de tirá-los dali para a revitalização do espaço, passando por incompreensíveis alvarás de funcionamento concedidos pela Prefeitura, pelo silêncio da Promotoria por anos seguidos, por inúmeros recursos judiciais, conflitos entre moradores e CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e tentativas frustradas de demolição podemos dizer que já comentamos e noticiamos de tudo.
Só não conseguimos, infelizmente, publicar uma decisão razoável e definitiva para o caso, que se transformou em um verdadeiro nó górdio para a Justiça e para as autoridades municipais e estaduais.
Em tese, a demolição está decidida e já deveria, inclusive, ter sido concluída. Porém, duas tentativas acabaram em discussões e em protestos dos moradores. Como nessas duas vezes não havia nenhum representante da Prefeitura ou da CDHU, os funcionários se retiraram, as obras foram paralisadas novamente e a situação retrocedeu à estaca zero, ficando novamente indefinida.
Nessa última semana, porém, parece que o caso ganhou um novo direcionamento. Em entrevista exclusiva a este Comércio, o governador Geraldo Alckmin falou pela primeira vez sobre o caso e tranquilizou os lojistas em relação aos trabalhos de demolição, afirmando que apesar da decisão judicial o Estado não tomará medidas radicais e buscará de todas as formas uma solução amigável para o caso.
Para o governador, se os trabalhos de revitalização começarem pelos módulos onde não há comércio, talvez a emissão do laudo de vistoria dos bombeiros e da escritura convençam os comerciantes dos benefícios e das vantagens dessa regularização, diminuindo assim a resistência dos que não querem mudar suas lojas para o novo centro comercial.
Pode até ser que o governador esteja certo. Por sua importância e pelo tom conciliador de suas palavras, algo relevante dentro de uma disputa tão longa e tão cheia de conflitos e desencontros, pode até ser que os lojistas tenham se tranquilizado com a leitura da entrevista. No entanto, o que poderá dar errado nessa estratégia de solução amigável é que pelas palavras do governador só deverão receber os laudos de vistoria e a escritura os módulos que forem revitalizados. Se quiserem se legalizar, pelo bem ou pelo mal, os comerciantes irregulares teriam que abdicar de suas lojas, o que implicaria na demolição das mesmas, justamente o foco de todo o conflito.
Nesse sentido, seria melhor que o Estado se decidisse de vez. Ou acaba com as lojinhas, como manda a lei, ou reconhece que também errou e, em função do tempo decorrido, legaliza as lojinhas e deixa a vida seguir seu curso, com ou sem revitalização.
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