Gato por lebre: o perigo além do ditado


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Ao invés de boi, estamos a comer cavalos e essa carne pode prejudicar a saúde
Ao invés de boi, estamos a comer cavalos e essa carne pode prejudicar a saúde

Mais ou menos nos idos 1950, o médico e antropologista Daniel Gajdusek detectou a origem de uma doença grave que se tornou epidemia entre o povo nativo da Nova Guiné, os Papuas. A doença, por lá, ficou conhecida por Kuru e a causa próxima, descoberta pelo doutor Daniel (feito que lhe rendeu um Nobel) era a antropofagia praticada por aquele povo. Em ritos funerários, eles comiam o cérebro e as vísceras de seus familiares, e a encefalopatia atacou principalmente mulheres e crianças. O que o doutor Daniel fez foi provar algo que já se vira em animais nos Estados Unidos, animais que tinham sido alimentados com farinha contendo restos de sua espécie.

A mesma história se repetiu recentemente quando assistimos, penalizados, o triste desdobramento da doença da “vaca louca”, na Inglaterra, e depois mundo a fora. Novamente porque animais estavam sendo alimentados por uma farinha produzida a partir de vísceras de outras vacas. A doença da “vaca louca” trouxe um prejuízo financeiro e moral. A maioria de nós prefere não saber exatamente como as comidas de que gostamos são feitas; desde que o gosto seja bom, melhor deixar pra lá. Mas vira e mexe pipocam denúncias tenebrosas sobre as “carnes” dos embutidos e dos fast food - e a maioria de nós simplesmente ignora.

Por isso, assistimos a um novo episódio insólito: ao invés de boi, estamos a comer cavalos. De fato, cavalo é comestível, não há problema em essência nisso, só que quem tem que decidir se quer comer cavalo ou não são as pessoas. E, muito embora, a carne seja comestível, os hormônios encontrados na carne desses cavalos não são comestíveis e trazem danos à saúde.

Vivem nos soprando aos ouvidos que não temos ideias do que constitui os hambúrgueres, salsichas e mortadelas que comemos. Dá medo, sobretudo quando vemos o envolvimento de tão grandes empresas alimentícias, as maiores do mundo, inclusive a Nestlé, em casos assim. E não dá pra engolir um pedido de desculpas, afinal, como pode ter havido engano entre boi e cavalo?!

Dizem que o Brasil está livre dessa ocorrência. No entanto, Carlos Alberto Dória denuncia em seu blog que o gigante frigorífico JBS comprou carne da Europa e eles são detentores de marcas familiares a nós: Swift, Friboi, Bertim...

Contudo, práticas estranhas continuam a acontecer bem debaixo de nossas barbas. Justo agora, em fevereiro, a Comissão Europeia voltou a autorizar a utilização de ração feita a partir de vísceras de aves e porcos para alimentar peixes criados em cativeiro.

O Brasil tem um grande fabricante desse tipo de ração: o antigo proprietário da Blue Life, o médico Ayres da Cunha Matos. Ele é um grande criador de tilápias, fornecendo para o Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart. E, claro, como um grande produtor e estrategista, criou uma farinha com as sobras dos peixes, com isso reduz o custo de produção.

Existem outras empresas brasileiras que fabricam diversas farinhas a partir de restos de animais - até pena de galinha entra na mistura. O Chile é nosso principal comprador desse tipo de ração e nós um dos principais importadores dos seus salmões de cativeiro, alimentados com essas rações. Então é peixe comendo carne, é peixe comendo ave, é peixe comendo da sua mesma espécie. Canibalismo involuntário, outra vez...

Só nós podemos dar uma resposta para isso. Não sei exatamente qual seria ela, mas o começo bem que poderia ser querer menos, exigir menos, se contentar com menos também. A resposta para isso é o frango caipira, é uma ruralidade possível, é o pequeno produtor, é a possibilidade de rastreamento do que eu, vocês e nossas famílias comemos.

Dica da semana

CRÈME FRAÎCHE

O crème fraîche, na tradução literal do português para o francês resultaria em crème fresco, que propriamente falando, em termos gastronômicos, não estaria correto para nós. O crème fraîche é mais uma das especialidades francesas, tão habilitados e habituados que são às manteigas e cremes. Ele pode ser considerado líquido ainda, mas é mais espesso e ácido. Pode ser batido, embora não seja apropriado para chantilly, por ser grosso para esse fim. E serve tanto ao doce como sal. Quando a sua receita estrangeira pedir crème fraîche, e for salgada, pode-se substituir por iogurte ou sour cream. Mas, dá para fazê-lo em casa: misture 500 ml de creme de leite fresco a 250 ml de creme de leite azedo em uma panela média e mexa. Aqueça em fogo baixo até amornar levemente. Despeje em uma tigela de vidro e cubra com um prato, deixando uma pequena brecha. Deixe em local fresco por um período de 6 a 8 horas, até que engrosse e fique ácido. Mexa de novo, tampe e leve à geladeira até a hora de usar. Após um tempo, a gente nota uma separação no creme: o mais grosso por cima, e líquido embaixo. O de cima é que é o creme fraîche. Com uma escumadeira retire o creme e guarde-o em geladeira.

Fonte: blogs Ana Elisa Granziera e aquecendo a barriga.

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