Toc. Toc. A menina perdera a conta de há quanto tempo a mãe estava sentada no tamborete que fazia as vezes de banco ou cadeira junto à rústica mesa da cozinha.
Toc. Toc. Como se estivesse impedida de se conter, a mãe batia com as pontas dos dedos sobre a mesa e aquele barulho, inicialmente baixo, com o tempo ressoava como bumbos em ouvidos amedrontados.
Toc. Toc. As pontas dos dedos maternos sangravam levemente e deixavam desenhos avermelhados, sem qualquer nexo, sobre o tampo que suportava o tamborilar constante.
A menina conhecia poucas palavras. A menina conhecia pouco do carinho da mulher que, ensimesmada, perdera-se há horas e horas nos labirintos negros da própria mente. Assim, mesmo examinando atentamente o seu mundo criança, simplesmente não sabia o que fazer ou o que dizer. Por isso se agachou, pôs-se de cócoras perto do fogão à lenha e ali ficou vendo as últimas brasas morrerem.
O medo que sentia trouxe um frio dentro da alma. Os braços pequenos circundaram as pernas em um gesto de auto-proteção. A chama da lamparina oscilava e aos poucos ela passou a brincar com as formas das sombras que lambiam as paredes enegrecidas pela fumaça.
Toc. E a sombra agora era o Pai.
Toc. O pai vinha salvá-la.
Toc. Ele trazia balas da cidade e ria para ela.
Toc. O pai cortava a lenha.
Toc. O pai cuidava do mundo delas.
O pai, as sombras, o pai, as sombras, as sombras. Uma sombra, o pai!
O pensamento da menina voou.
Toc Toc. Seus pés corriam pela trilha de terra batida.
Toc. O riacho, a cascata, o poço d’água transparente pintado de azul esverdeado pela luz.
Toc. Ela com os braços abertos, vestida com chita pobre, boiando na água fresca.
Toc. A dor se acalmando. Os olhos semicerrados, brincando de luz e sombra, bebiam os raios de sol que, filtrados pelas copas das árvores, desenhavam o alto com riscas de luz.
Toc. A cabeça levemente mergulhada cercava tudo de silêncio e paz. Tudo o mais eram hipóteses.
O cão branco, vermelho de terra, com uma mancha preta sobre um dos olhos, teve pena da menina do olhar perdido. Deitou-se e espichou as patas. Colou o focinho no chão de terra batida e manteve os olhos fixos na dor que a menina sentia.
Ainda mais apiedado, arrastou-se devagar, esgueirou-se no chão deserto de aconchego. Encostou-se na menina de olhos vazios, aqueceu-a e só assim, embalada por um sentimento tão pleno, pôde a menina adormecer.
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