Em uma época não muito distante, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, destas de uma rua principal e quase mais nada, moravam Tereza e seu jovem filho Roque, em casa confortável com amplo terreno, onde havia, entre outras árvores frutíferas, jabuticabeiras centenárias que floresciam brancamente, soltavam botões verdinhos que se transformavam em frutinhas pretas luzidias, quase sempre entremeadas de gotículas d’água, duas vezes por ano. Um arroio banhava suas raízes, lentamente, e os troncos carregavam de frutas.
Roque herdara férteis terras do pai, criava gado e os vendia em rincões perdidos nas serras, transportando-os em caminhão. Sua mãe o ajudava a administrar os bens que ia acumulando.
Era bem formado, garboso e sedutor por natureza. Há tempos se enamorara de uma graciosa prima, de cidade próxima, que não resistiu aos seus encantos e veio morar com ele, na casa de sua mãe. Os pais dela o obrigaram a se casar e ele se orgulhava de ter a certidão de casamento oficial. A única, pois os outros relacionamentos não puderam ter este privilégio. Ficou muito tempo casado, mas audaz, intrépido, quis conhecer distantes plagas e viver intensas aventuras. A crença na efemeridade da vida o estimulava. Partiu no início do ano e depois de muitos outros, voltou com nova mulher, abençoados pelo padre do lugar, por exigência do pai dela. Ampliou a casa, acomodou-a em quarto espaçoso e sua mãe logo se afeiçoou a ela como acontecera com a primeira. Roque estava feliz e por lá ficou, mas não por muito tempo, pois tinha o espírito buliçoso, gostava de conquistas e emoções fortes. Partiu, passou por caminhos ignotos e longínquos e, quando retornou, veio a acompanhar-lhe uma jovem faceira, que por ele se apaixonara. Mesmo sem papel, sem bênção a terceira esposa gostou da casa, novamente ampliada e se deliciou com as frutas pretinhas e doces, pois era tempo delas.
As mulheres de Roque viviam em harmonia, tinham confiança nele, pois era destemido, um homem de atitude. Na casa dele não havia discórdia, inveja, favoritismo, também elas não eram raivosas, egoístas e ciumentas. Tereza convivia pacificamente com as noras e com os netos que eram muitos. Seu filho tudo provia e a alegria era uma constante entre eles.
Mal esperou alguns anos e lá se foi o Dom Juan brasileiro ,não o leviano, libertino e cínico que nos mostra a literatura, mas o dócil, amoroso e sedutor. As jabuticabeiras cobriram-se de neve várias vezes e quando todos o esperavam ansiosamente, eis que surge acompanhado de um jovem alto e viril que se parecia muito com ele quando jovem. Era um filho seu que fora criado com a mãe e que agora iria morar com eles. As esposas o receberam com mimos e atenções e todos viveram felizes. A tendência nômade de Roque, mais uma vez, o influenciou e ele se foi. A mãe afastou-se para seus afazeres e não interferia mais nas decisões. Em breve, o filho substituiu o pai na vida daquelas mulheres tão acostumadas ao amor. Muitas floradas ornamentaram as árvores e Roque não apareceu.
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