Coragem e humildade


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O mundo se surpreendeu, semana passada, com a decisão de renúncia do Papa Bento XVI. Alegou problemas de saúde, falta de inspiração, de condições físicas e psicológicas para continuar no cargo.

A renúncia papal, fato que não ocorria há mais de seiscentos anos, trouxe espanto, perplexidade e grandes questionamentos, razão pela qual quero expressar meu ponto de vista sobre a questão. O que o teria levado a tomar esta atitude?O porta-voz do Vaticano contribuiu para fortalecer os questionamentos. Reconheceu que o Papa, embora use marca-passo cardíaco há algum tempo, não está efetivamente acometido de nenhuma doença grave. Por outro lado, suas recentes aparições públicas e os seus últimos pronunciamentos, sinalizam, claramente, nitidez de raciocínio e plena higidez mental. Adeptos de ‘teoria da conspiração’ já se apressaram nas especulações dos motivos que teriam levado o Papa ao ato de renúncia. Para uns, estaria sofrendo pressões da ala liberal da igreja católica.

É de domínio público que o então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, sempre esteve nas fileiras conservadoras da igreja católica.

Uma ala bastante refratária à implementação de algumas mudanças, consideradas necessárias, para que a igreja enfrente os novos tempos e freie os avanços de outras religiões em várias partes do mundo.

Para outros, o Papa renunciou por não ter enfrentado adequadamente as várias e graves denúncias de pedofilia entre alguns membros do clero. E, por último, para alguns, o fato desencadeador da crise estaria ligado ao vazamento de documentos confidenciais do Vaticano por seu assistente direto, Paolo Gabriele.

De maneira geral o povo brasileiro não convive bem com renúncias. Desde Getúlio Vargas, que teria preferido suicidar-se a ter de renunciar, passando pela renúncia não bem esclarecida de Jânio Quadros, no início da década de 60, é bastante comum político brasileiro dizer, em momentos de crise, que a palavra ‘renúncia’ não consta de seu vocabulário.

Eu, particularmente, tento compreender o ato do Pontífice. Ele está, sim, cansado e se sentindo sem forças para continuar governando uma agremiação religiosa altamente complexa, cheia de desafios históricos e que conta, atualmente, com mais de um bilhão de adeptos espalhados pelo planeta.

Louvo sua atitude. A regra é pessoas não ‘largarem o osso’, por mais insignificante que seja. Já o Papa, assumiu postura digna ao permitir que outro, certamente mais novo e com mais disposição, venha a ser escolhido para dar ao catolicismo o direcionamento que o momento está exigindo. Talvez o que a igreja necessite que ele faça, não seja o que ele gostaria de fazer. Assim a sua decisão deve ter sido sofrida.

Penso que não devemos confundir renúncia com covardia. Em alguns casos, e o caso recente de Bento XVI é um desses, renunciar é ato de desprendimento e, principalmente de coragem e humildade.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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