A imprensa falou de forma incansável sobre a renúncia do Papa Bento XVI. O fato, por ser raro, e pela dimensão que provocou, trouxe perplexidade ao mundo.
O Papa é reconhecido como autoridade pública mundial e seus atos e palavras são recebidos como tal. Diante disso, se pergunta: quais os reais motivos da renuncia? Trata-se de coragem ou covardia?
Aprendi que atos e palavras sempre podem ser interpretados de formas diferentes. Não se consegue controlar totalmente o discurso e nem o efeito de sentido que produzirá. Coragem e covardia podem ser consideradas como faces de uma mesma moeda?
Não existe em todo ato de coragem um de covardia e vice-versa? Penso que sim, e explico: lembre-se de filme onde um gladiador vence luta. Sabe que venceu, que seu inimigo já foi derrotado, está caído, e nada mais é preciso fazer; no entanto, de forma ‘corajosa’ ou ‘covarde’ desfere o golpe de misericórdia. Esse último golpe, para o vencido, deve ocorrer, senão, será visto como guerreiro sem honra.
O bom guerreiro morre na batalha. Se o adversário não o mata, vivo não mais será um guerreiro corajoso. Todo guerreiro estrategista reconhece suas limitações e sabe quando não mais tem recursos físicos e psicológicos para continuar a guerra. Renunciar, então, é um caminho, pois, morrer em batalha nem sempre é ato de coragem.
Toda renúncia gera mudanças em estruturas estabilizadas ou claudicantes, e isso é certo. O Papa Bento XVI é um homem letrado, dotado de profundo, eclético e ‘invejável’ conhecimento da doutrina católica, de teologia, além de dominar outros campos do saber. Foi escolhido por seus pares e, para os cristãos, essa escolha foi inspirada pelo Espírito Santo, o paráclito, terceira pessoa da santíssima trindade, que tem a missão de santificar o ser humano. Jesus foi o próprio Deus em forma de homem e aceitou morrer na cruz, pior espécie de morte da época, para salvar o homem do pecado. Sendo ele Deus poderia livrar-se da morte e provar sua existência naquele momento, porém, com a morte, Jesus voltou ao Pai e enviou o Espírito Santo para que Ele estivesse com os seres humanos até os últimos dias. Com a morte houve a ressurreição, que é a vitória do cristianismo, pois é através dela que se encontra a vida eterna.
Olhando a renúncia do Papa pelo prisma da cruz de Jesus, não há como deixar de afirmar que, em todos os sentidos, é um ato de coragem, e que nós, pobres mortais, não vemos a dimensão real dos atos quando são pautados e praticados pela fé, na certeza de que Deus está no controle de tudo e que tudo é possível para aquele que crê. Para mim, a renúncia não foi ato de covardia, mas sim de coragem, principalmente por ocorrer em um momento de lucidez e, certamente, baseada na fé.
Não podemos esquecer que esse Papa tem a real dimensão de seus atos. Covardia não se encaixa no perfil dele. Só é capaz de renunciar quem é humilde ao ponto de reconhecer que sua luta, doravante, deve ser combatida por outro guerreiro. Tenho certeza de que o Papa Bento XVI, tal como São Paulo, combateu o bom combate. Reconhecer isso é coragem. O inverso seria covardia. Há casos e casos e cada caso é único. Cada ser humano é único por ser dotado de liberdade que lhe permite praticar atos de covardia e de coragem. A cruz de Cristo é covardia ou coragem?
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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