Desde tempos antigos a Quaresma é considerada período de renovação da própria vida
As práticas a serem cumpridas são, sobretudo, três: oração, luta contra o mal e jejum. A oração, para pedir a Deus forças para converter-se e acreditar no Evangelho. A luta contra o mal, para dominar as paixões e o egoísmo. Por fim, o jejum. Para seguir o Mestre o cristão deve ter a força de esquecer de si mesmo, de não pensar no próprio conforto, mas no bem do seu irmão. Assumir uma permanente atitude generosa e desinteressada é difícil. Este é o jejum. Neste tempo da quaresma a Palavra de Deus é sempre muito forte e firme para iluminar a nossa vida e nos chamar à conversão. Que lições este domingo nos reserva?
1ª LEITURA — DEUTERONÔMIO 26
Na primavera, quando o trigo já estava maduro e os pomares começavam a produzir seus frutos, os israelitas recolhiam os primeiros produtos e levavam ao sacerdote no templo. Ao oferecê-los ao ministro de Deus, o agricultor proferia as seguintes palavras: reconheço que estes frutos não me pertencem, são um presente do Senhor pois se desenvolveram na terra que o Senhor me deu.
O sacerdote recebia o cesto, colocava-o diante do altar do Senhor e em seguida, enquanto permanecia de pé e em devoto silêncio, o piedoso agricultor israelita fazia a sua profissão de fé. Com esta cerimônia os israelitas proclamavam a fidelidade de Deus às suas promessas e reconheciam que a vida deles dependia totalmente da sua generosidade: tudo o que possuíam era um presente de Deus. E o que faziam dessas primícias? Os frutos oferecidos não eram queimados no altar, eram consumidos pelos representantes de Deus: os pobres. Eram ofertados aos levitas, aos estrangeiros, aos órfãos e às viúvas. A festa só podia ser considerada bem sucedida e agradável a Deus depois que todos, estes tivessem ficado saciados. Há um fato que pode ser constatado por todos: os lugares de oração (não importa a quais religiões pertençam) constituem sempre um ponto de referência para os pobres. Eles percebem que quem se aproxima de Deus é impelido para a solidariedade e generosidade em favor dos necessitados.
2ª LEITURA — ROMANO 10
Também nesta leitura, exige-se fazer uma profissão de fé. O camponês, que apresentava as primícias do seu campo, proclamava diante do altar e do sacerdote do templo, as grandes obras que o Senhor tinha realizado em benefício do seu povo. Da mesma forma o cristão é chamado a anunciar a todos os homens o sinal mais sublime da benevolência de Deus, a maior obra de salvação cumprida por ele: a ressurreição de Jesus. A fé neste Deus que veio ao encontro dos homens deve ser proclamada de duas formas: com o coração e com os lábios.
“Com o coração” quer dizer com a vida. A fé em Cristo deve produzir uma vida completamente nova. O apóstolo, porém, ensina que a fé também deve ser manifestada “com os lábios”, pois o “Creio”, pronunciado junto com os irmãos, torna possível unir a própria voz às vozes deles.
EVANGELHO — LUCAS 4
Todos os anos, no primeiro domingo da Quaresma, a liturgia nos leva a refletir sobre as tentações de Jesus. Mostra-nos o modo como o Mestre as enfrentou para nos indicar como nós também as podemos reconhecer e superar.
A primeira tentação: “Ordena a esta pedra que se torne pão!” Observamos o fato de que Jesus, o justo, o santo, não começou sua missão censurando os pecadores, não se limitou a dar-lhes bons, conselhos, mantendo-se à distância como costumavam fazer os fariseus. Ele foi receber o batismo junto com os pecadores, misturou-se com eles, tornou-se um deles, preferiu percorrer o caminho que leva à libertação junto com eles. Eis, pois, a primeira tentação à qual Jesus foi submetido: usar seu poder divino para se livrar das dificuldades que os homens comuns enfrentam. Jesus entendeu como era diabólico este projeto: usou, sim, o seu poder para operar milagres, mas não para seu proveito, e sempre em favor dos outros.
A segunda tentação: “Dar-te-ei todo esse poder e a glória desses reinos, porque me foram dados”. O instinto de dominar sobre os outros está tão profundamente arraigado no coração humano que até mesmo o pobre sente um desejo irrefreável de prevalecer sobre quem é ainda mais fraco do que ele. Às vezes cedemos a essa tentação sem nem mesmo perceber. Corremos o risco de adorar o demônio, pensando estar rendendo glória a Deus. Isto acontece quando, por amor ao bem e para instaurar o Reino de Deus, apelamos para recursos ou escolhas que contrariam os planos de Cristo. Onde quer que se exerça o domínio sobre a pessoas humana, onde quer que se espezinhe a dignidade dos outros, onde quer que alguém, em nome do poder que lhe foi conferido, mesmo espiritual, venha privar os outros dos seus direitos e da sua liberdade, ali entra em ação a lógica do diabo.
A terceira tentação: a que procura estabelecer uma relação deturpada entre o homem e Deus. A proposta do demônio é, de fato, baseada na Bíblia: “Lança-te do alto do pináculo do templo”. O objetivo mais importante do maligno não é o de provocar algum desvio moral, alguma fraqueza, alguma falha, mas o de corroer os fundamentos das relações com Deus. Este objetivo é alcançado quando se insinua na mente do homem a dúvida de que o Senhor não se mantenha fiel às suas promessas, que falte com sua palavra, que garanta proteção para, em seguida, abandonar quem depositou nele a sua confiança. Desta dúvida surge a necessidade de “ter provas”. Como se apresenta para nós, atualmente, esta tentação? Há cristãos que se sentem amados por Deus só quando tudo corre bem, quando é possível constatar os sinais da sua benevolência. Se surge, porém, alguma doença, ou quando algum infortúnio se abate sobre eles, começam a duvidar e a se perguntar: “Afinal, Deus ama os seus fiéis ou não? Preocupa-se comigo ou se esqueceu de mim?” Se ele não der as provas de amor que estamos exigindo, a nossa fé corre o risco de desabar.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.