Renúncia papal


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Os católicos começaram a última semana assustados. Pegos de surpresa com a notícia da renúncia do papa, muitos se puseram a pensar o que poderia levar um líder dessa magnitude a abdicar de seu posto, ainda mais quando se sabe que a última renúncia papal foi há cerca de 600 anos.

Alguns, certamente, acreditaram que a saúde fragilizada do pontífice seria o motivo principal dessa difícil e polêmica decisão. Porém, os ventos vindos da Europa logo trouxeram novas interpretações. Divulgadas por vaticanistas reconhecidos, elas estão defendendo que o problema, na verdade, é muito mais complexo do que se imagina, pois revela que o lado terreno da política está superando a parte espiritual da religião, algo difícil de explicar para os cerca de 1,2 bilhão de seguidores que sempre acreditaram nesse espírito divino da Igreja.

Tanto é que em um primeiro momento essas afirmações talvez tenham soado como heresias profundas para os mais crédulos, entendendo que elas teriam sido proferidas por jornalistas, críticos ou intelectuais insensíveis à palavra de Deus. Essa percepção, no entanto, foi logo descartada pelo próprio Bento XVI, para desespero desses mais fervorosos, pois em sua última homilia ele fez duras críticas à cúpula da Igreja.

Em tom de desabafo, e mesmo com voz frágil, fez um dos mais significativos discursos das últimas décadas, afirmando que ‘as disputas por prestígio pessoal e poder’ estariam ‘dividindo o clero e desfigurando a Igreja Católica’, configurando-se em uma espécie de ‘hipocrisia religiosa’ que começava a ganhar corpo no Vaticano.

A dureza dessas palavras, obviamente, se explica apenas por questões de fé, as quais, por sua própria essência, pouco se abrem para a abordagem mais racional. Mas o que chama bastante a atenção nesse caso, independentemente da crença de cada um, é que o discurso revelador da existência de uma política mundana no seio de uma instituição que se propõe como caminho para a santidade veio justamente daquele que era considerado um de seus mais conservadores líderes.

Como todos sabem, Joseph Ratzinger foi durante muito tempo o encarregado da Congregação para a Doutrina da Fé, anteriormente conhecida como Tribunal da Santa Inquisição. Nessa função, ele postou-se como um guardião dos dogmas católicos em relação às transformações sociais e comportamentais que foram acontecendo nessas últimas décadas. Foi, por exemplo, o responsável por combater a Teologia da Libertação que se disseminava pela América Latina, expulsando alguns bons sacerdotes apenas porque eles propunham um novo caminho para Igreja.

Portanto, nesse momento em que a Igreja Católica, enquanto instituição, precisa se repensar diante dessas novas e mais rápidas mudanças que vêm acontecendo no mundo, coube a um conservador o aviso mais liberal e significativo que o Vaticano poderia ouvir nessa ocasião.

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