Sabe-se que o Carnaval nasceu por inspiração da própria igreja católica. Sim, para que o fiel pudesse cumprir fidedignamente todo o período de abstinência preconizado nos quarenta dias da quaresma, permitia-se que nos três ou quatro dias anteriores, o devoto pudesse viver com um pouco mais de licenciosidade, obviamente que sem exageros. Seria apenas para brincar, não para se acabar.
O que não se esperava e nem se imaginava, era que, com o passar do tempo, algumas pessoas, especialmente jovens, se transformassem tão radicalmente no período carnavalesco.
É inegável que há excessos, especialmente de bebidas, drogas e sexo. Alguns perdem o senso do limite. Vivem esses dias como se fossem os últimos de suas vidas. Tudo se permitem sem qualquer pudor, constrangimento ou sentimento de culpa.
É como se recebessem, no período carnavalesco, salvo conduto para conduzirem suas vidas sem qualquer regra de comportamento civilizado. Alguns, mais radicais, chegam a descuidar da própria higiene pessoal e da saúde, comendo e dormindo pouco. Como toda ação pressupõe reação de igual ou maior intensidade, depois vem à conta. Algumas altíssimas.
Gravidez inesperada ou indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, dependência química são algumas das consequências dos desatinos e dos excessos cometidos nos festejos de Momo. Em outros casos, mais graves, acidentes fatais acabam infelicitando comunidades inteiras, especialmente amigos e familiares.
Por outro lado, a sociedade de consumo é que cria a atmosfera mais favorável ao cometimento desses indesejados excessos. A indústria do Carnaval cobra grandes dividendos às empresas, notadamente aos fabricantes de bebidas alcoólicas.
Algumas cidades interioranas, embora sofrendo com a escassez de recursos, gastam o que não têm para atrair o turista folião.
Prioridades como saúde, educação e saneamento básico acabam relegadas a plano secundário. Afinal, Carnaval dá popularidade e voto. Os romanos, na antiguidade, já proclamavam: ‘ad populum panis et circensis’ (Para o povo, pão e circo).
Procedo de uma cidade onde Carnaval é festa tradicional. Já fui adolescente e jovem. Cometi excessos, não ouso negar. Hoje, maduro, tenho uma visão bastante clara do Carnaval e que tento transmitir para minhas filhas.
A lição é bastante simples e nos foi legada pelo grande Dom Helder Câmara: ‘brinque meu povo querido. Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça, mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida’. Deve-se, sim, brincar e se divertir no Carnaval, mas de forma saudável e consciente, sabendo que o mundo não deve se acabar em quatro dias.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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