A construção de uma das maiores áreas de lazer de Franca está sob suspeita. Inaugurada há cinco anos, a Praça Zumbi dos Palmares, no Parque São Jorge, pode esconder em seu solo restos de caixões e ossos humanos. O Ministério Público do Estado de São Paulo investiga uma denúncia de que a Secretaria Municipal de Serviços e Meio Ambiente teria usado terra proveniente do Cemitério Santo Agostinho para aterrar o local.
Não há dados precisos sobre a quantidade de resíduos do cemitério que teria sido depositada na praça. O que afirmam três funcionários da secretaria que trabalharam diretamente na construção da área é que caminhões contendo esse tipo de material foram despejados lá entre 2006 e 2007. “Não lembro direito de quantas viagens fiz. Sei que tinha mesmo esse negócio do cemitério. A gente recebia a ordem e cumpria”, disse um dos servidores que pediu para não ter o nome revelado com medo de represálias.
A ordem para o uso da terra do cemitério, que à mesma época promovia a exumação em 250 túmulos para a abertura de novos espaços, teria partido do então coordenador de Serviços da Prefeitura, Ismar Tavares, hoje secretário na mesma pasta. “A gente pegava com o encarregado nosso itinerário do dia e lá vinham os locais onde era pra gente ir ”, disse outro servidor.
A Praça Zumbi dos Palmares começou a ser construída em julho de 2006. A previsão inicial era de que os serviços consumissem R$ 150 mil e durassem três meses. Ao final, custaram R$ 356 mil aos cofres municipais e levaram um ano e quatro meses até ser entregue em novembro de 2007.
De acordo com a denúncia feita ao Ministério Público, os resíduos do cemitério estão no subsolo da praça, a cerca de 80 centímetros da superfície.
O caso foi registrado pela promotoria no ano passado. Dois procedimentos de investigação foram abertos: um na Promotoria do Meio Ambiente, para apurar danos no solo e lençol freático, e outro na Promotoria da Cidadania, para averiguar suspeitas de conduta irregular por parte do atual secretário de Serviços e Meio Ambiente, Ismar Tavares.
INVESTIGANDO
O promotor de Justiça, Paulo César Corrêa Borges, disse anteontem que os procedimentos ainda estão em fase inicial de investigação e que qualquer afirmação no momento é prematura. “Ainda nem ouvimos as testemunhas.”
Sobre o processo na Promotoria do Meio Ambiente, Borges adiantou que um primeiro laudo sobre uma possível contaminação do lençol freático deu negativo. “A análise feita pela Cetesb apontou que a água subterrânea não foi atingida.” Um laudo para apurar se há contaminação do solo já foi requerido.
Segundo especialistas, o destino dos resíduos de cemitérios depende de investigação prévia para descartar contaminação. A Cetesb de Franca não informou se a terra do Santo Agostinho foi analisada.
Procurado para comentar o caso, o secretário Ismar Tavares pediu que as perguntas fossem enviadas por e-mail, pois ele iria se inteirar do assunto. Ele se comprometeu a respondê-las. A reportagem atendeu à solicitação e confirmou o recebimento do e-mail, mas, depois disso, o secretário não atendeu mais às ligações. Foram feitos mais de 20 telefonemas para seu celular, mas ele não retornou.
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