Quem não conhece a mulher de baixa estatura, bastante agitada e extremamente positiva, dificilmente sabe que, por trás de um longo trabalho de cuidado e amor ao próximo, está impregnada uma tragédia pessoal. Em 1982, Rosa Pádua Aylon, mais conhecida como Rosinha, perdeu o filho Fernando, ainda bebê, após ele sofrer choque anafilático causado por um medicamento. E foi na busca de se livrar da quase insuportável dor do luto que ela decidiu batalhar para ajudar os outros. “Chorei muito durante um ano, até que um dia comecei a ver outras mães na mesma situação. Não era só eu que tinha aquela dor, não era a única do mundo. Então eu disse que as minhas lágrimas seriam só de felicidade e para ajudar meu próximo.”
Foi exatamente o que Rosinha fez e, da dor, nasceu uma devotada voluntária. “São muitos anos de luta, mas de muito amor e solidariedade.” Assim Rosinha descreve as três décadas da sua vida dedicadas ao voluntariado.
Rosinha é voluntária no Berçário Dona Nina há 21 anos. Hoje é diretora da instituição que funciona 24 horas como um minihospital que atende em média 30 crianças vítimas de anemia, desnutrição e outras doenças.
Atualmente, além de administradora, distribui sopa para famílias carentes no Jardim Aviação; coordenada oficinas de bordado; faz atendimentos fraternos, nos quais dá conselhos e orientações; fornece lanches para os idosos do lar Casa do Vovô, dá passes espíritas e até mesmo realiza casamentos.
Uma das histórias mais marcantes das quais participou foi a união de amigos para construírem uma casa para uma família carente que estava desabrigada. O casal e os nove filhos tinham sido despejados de um imóvel e o grupo ajudou a mudar a história da família.
Mesmo com agenda tão intensa, Rosinha, de 57 anos, diz que sempre reserva tempo para a família. Ela é casada com o gerente de banco aposentado Leonel Aylon Cantano, 62, e tem três filhos: o dentista Leonardo, 34; o procurador Ronaldo, 32 e a advogada Flávia, 26, além de dois netos.
Seguidora da Doutrina Espírita, Rosinha afirma que a religião está presente em todos os aspectos da sua vida. “Com a religião, eu me encontrei”, disse.
Comércio da Franca - Como nasceu a oportunidade de trabalhar no Berçário Dona Nina?
Rosinha Aylon - Estou aqui há 21 anos, mas trabalho com assistência há mais de 30. Fui convidada a trabalhar aqui porque o berçário era muito precário e desconfortável. Comecei a batalhar, ir atrás de todo mundo, porque, até então, ninguém conhecia o berçário. Fui atrás de empresários, rádios, jornais e as pessoas foram descobrindo o berçário. Decidimos fazer um primeiro jantar para arrecadar fundos há 14 anos e recebemos 250 pessoas. Hoje, fazemos jantar para 1.200. Fomos fazendo campanhas e promoções e, com isso, reformamos o prédio, a casa da sopa, o berçário.
Comércio - Como a senhora se tornou voluntária?
Rosinha - Há 35 anos eu me casei. Tive três filhos, um atrás do outro, e o terceiro, Fernando, morreu com alguns meses de vida. Foi um choque muito grande para mim e chorei muito durante um ano. Até que um dia comecei a ver outras mães na mesma situação. Não era só eu que tinha aquela dor, não era a única do mundo. Então eu disse que as minhas lágrimas seriam só de felicidade e para ajudar meu próximo. Nunca mais parei. Se você está bem, estou bem. Se o meu próximo está feliz, eu estou feliz.
Comércio - Quais são as atividades que a senhora coordena no berçário?
Rosinha - Na segunda-feira à tarde faço atendimento fraterno, ou seja, eu escuto as pessoas e dou direcionamentos. É tudo particular e confidencial. Também sou médium e tenho uma certa vidência. Então, quando converso com as pessoas, vejo e percebo alguma coisa que já ocorreu na vida dela. E é nisso que a gente vai trabalhar para elas melhorarem. Depois temos o passe para mais de 200 pessoas. À noite, vou para a reunião mediúnica. Na terça-feira, distribuo sopa para a população carente no Jardim Aviação. À tarde, estou aqui, com a oficina de bordado. Trabalhamos o ano inteiro com isso, e, em outubro, fazemos um grande bazar para ajudar a pagar o salário dos funcionários. Quarta-feira visito famílias. Na quinta, dou um lanche para o asilo Casa do Vovô. Faço isso de 15 em 15 dias. Quando não vou para o asilo, fico aqui [no berçário] das 16 às 22 horas, aplicando passes para quase 500 pessoas, com a ajuda de uma equipe composta de 30 voluntários. Sozinho, você não é ninguém, e só dou conta porque tenho ajuda. Na sexta-feira, eu sou mulher [risos], reservo tempo para mim. No sábado e domingo, fico mais em casa, porque gosto muito.
Comércio - Que outros trabalhos a senhora desenvolve e considera importantes?
Rosinha - Há uns cinco anos, comecei um trabalho com jovens dependentes químicos e com problemas familiares. Aqueles que queriam ser internados, eu mandava para Araxá, porque tem uma casa para dependentes lá. Outros, que tinham mais problemas familiares, eu acompanhava. No começo, eles faziam um diário para mim. Então, tudo o que eles faziam, eles escreviam e passavam para mim. Chegava em casa e lia um por um, vendo do que eles mais estavam precisando. Aí conversava com cada um deles em particular. Alguns desses jovens estão comigo trabalhando hoje, porque dou oportunidade para eles trabalharem. Uns estão aqui na sexta-feira à noite, fazendo sopa para viciados e moradores de rua. Eles ficam até cinco horas da manhã distribuindo os ali mentos. São jovens que não estão aí, jogados. Eles precisavam de um empurrão e alguém para acreditar neles. É o que faço. Hoje, um deles é até o cabeça da sopa. É um espetáculo. Não participo dessa distribuição de sexta. Você não pode fazer tudo, porque senão eles não deslancham. Há também um grupo que chama Caminhada de São Francisco e, no final do ano, nós montamos um pacote de alimentos, com goiabada, leite, pão, danone, salsicha, carne, frango, tudo que não é colocado numa cesta básica. Começo a arrecadação para as doações desse grupo em setembro. Meu aniversário é 7 de dezembro e falo para minhas amigas que não quero presente. No ano passado, cada uma doou R$ 20 para comprarmos os alimentos e doá-los.
Comércio - A senhora também realiza cerimônias de casamento?
Rosinha - Sim, no ano passado, fiz 37. Não precisa de nada, você vai pedir autorização para quem? Para Deus? Nos casamentos, não menciono religião. Falo de amor, união.
Comércio - Nesses anos todos que história mais lhe marcou?
Rosinha - O Comércio divulgou uma reportagem sobre uma família que estava desamparada, no Residencial São Domingos, cerca de seis anos atrás. O pai, Sérgio, construiu uma casa num terreno que não tinha comprado, então, a área foi confiscada. Eles foram lá e derrubaram a casa dele. Li a reportagem e chamei uma companheira que me ajuda muito para visitarmos a família. Na hora que nós chegamos no bairro, encontramos uma cena estarrecedora. O Sérgio estava sentado no meio dos escombros, com a mulher, a Marta, e os nove filhos pequenos, cozinhando, ao relento. Aquilo me machucou muito. Levamos a família para um barracão, compramos um terreno e fizemos uma senhora casa para eles. Dali a dois meses, a Marta faleceu (câncer no intestino). Parece que ela estava só esperando as crianças terem um lugar para morar e ficarem em segurança. Todos nós temos que viver dignamente.
Comércio - E a senhora tem algum projeto para o futuro?
Rosinha - Quero reformar a casa de uma família no City Petrópolis. Uma senhorinha na faixa dos 80 anos teve um derrame. Já a filha e o marido dela morreram pelo mesmo problema. Ela é sozinha, não tem aposentadoria, nem dela e nem do marido porque eram trabalhadores rurais. Eu a visitei e fiquei encantada com a senhorinha, que cria os três netos. Como levantaram essa casa para ela há muito tempo, os tijolos estão vazados, cheios de buraco e as telhas com falhas. Meu projeto é arrumar a casa dela e vou conseguir, porque não desisto.
Comércio - Com tantas atividades, como é a sua relação com a sua família?
Rosinha - Desde pequenininhos, meus filhos foram criados assim. Eles iam comigo para a casa da sopa. Na minha casa, não se pode dizer não. Se alguém chega lá pedindo comida, meus filhos esquentam e não dão nada frio. Eu falo para os meus filhos: “Se você estivesse com fome, gostaria que alguém te desse um pão duro?”. Então você tem que dar coisas que você gosta de comer. É isso que nós fazemos. O meu marido também é um companheirão, ele faz parte do berçário, ajuda o Hospital “Allan Kardec” e me ajuda muito, me apoia muito.
Comércio - Não chega a ser estressante ter que viver sempre à procura de doações?
Rosinha - Muito, mas sou ligada no 220. Se alguém está precisando de mim, saio correndo. Já operei a coluna duas vezes, tive problemas no nervo ciático e não tenho movimento no pé esquerdo. Mas isso não me atrapalha. Com 25 dias de operada da coluna, estava aqui trabalhando. Fui privilegiada, não fiquei numa cadeira de rodas nem numa cama. Agradeço todos os dias por isso.
Comércio - A senhora é adepta da Doutrina Espírita. Como a religião está relacionada a seu trabalho?
Rosinha - A doutrina está em tudo na minha vida, sou muito grata [a ela]. Comecei a seguir há 35 anos porque tinha muita visão. Era chamada de louca pelos meus irmãos e sofria demais, aquilo me incomodava. Com a doutrina, me encontrei, fui me sentindo bem, fui dormindo melhor. Quando meu filho faleceu, me propus a reverter as minhas lágrimas e fazer algo ao próximo.
Comércio - Para quem tem vontade de ajudar ao próximo e não sabe por onde começar, qual o conselho da senhora?
Rosinha - É só vir aqui no berçário. Direciono para as oficinas de bordado, para sopa, para o asilo, para qualquer atendimento que fazemos. É só querer. Se você tem boa vontade, venha dar papinha para uma criança ou segurá-la no colo. Se você não quer lidar com crianças, venha levar um café para os idosos. A sua cidade está precisando e você vai se sentir muito bem sendo voluntário.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.