O homem sai do Banco do Brasil, caminha pela Rua Major Claudiano, rumo à praça central. Acaba de transpor a esquina da Travessa Archetti quando ouve o chamado às suas costas.
- Moço, ei moço!
Sequer torna a cabeça.O chamado não pode ser para ele, vez que a mocidade há muito se esvaiu em esquinas, ruas e becos da cidade e da vida repleta de encruzilhadas.
- Moço...
Quando a mão lhe toca o ombro, volta-se tenso, encara o rapaz que o olha candidamente.
- Que foi?
- Desculpa. Eu não queria assustar. Eu chamei, mas o senhor não escutou.
- O rapaz quer falar comigo?
- Quero, quero sim. Desculpa, eu não quero nada não. Quer dizer, eu quero é agradecer o senhor.
- Agradecer? Agradecer o quê?
- Ah, o senhor não está me conhecendo...Ah, desculpa, é claro que o senhor não lembra de mim.. Faz muito tempo, eu era um menino.
O homem arqueia as sobrancelhas, abre muito os olhos.
- Eu deveria conhecer o jovem?
- É.. quer dizer... não, eu é que reconheci o senhor.
- Meu jovem, acho melhor você se explicar. Assim a nossa comunicação está difícil.
- O senhor fez um favor grande pro meu avô. Faz tempo, de certo o senhor já esqueceu.. Mas o meu avô nunca esqueceu... Ele cansou de andar pelas ruas daqui do centro, querendo encontrar o senhor. Ele não sabia seu nome, aí era difícil, ele nunca achou o senhor. Eu também procurei muito. Eu garanti pra ele que um dia eu ia encontrar o senhor, ia devolver o dinheiro.
- Dinheiro?
- É, deixa eu lembrar o senhor. Vou falar como foi.
E o rapaz conta aos desmemoriados cabelos brancos a ocorrência verificada há muitos anos, cujos detalhes ele guardou e revela agora.
O avô era homem de atitudes estranhas. Quando o neto fez aniversário, recebeu presente inusitado: ir pela primeira vez a restaurante chique, almoçar e tomar sorvete. Foram à AEC Associação dos Empregados no Comércio de Franca. Depois de comer filé mignon com fritas, puseram diante do aniversariante uma enorme taça de sorvete com banana.
- Que delícia!
Que desespero, que confusão, quando o homem vestido de paletó preto, usando gravata borboleta, trouxe a conta.
- O vovô tinha esquecido a carteira, e ninguém acreditou nele. Queriam chamar a polícia, prender a gente.
- E então?
- Então o senhor ficou com dó do vovô e pagou a conta.
- Eu? Eu paguei, é?
- É. Foi o senhor que pagou.
- Meu jovem, não me lembro disso, não. Será que você não está me confundindo com outra pessoa?
- Não estou não. O senhor pode ter esquecido, mas o vovô nunca esqueceu. Cansou de andar por tudo que é canto, querendo encontrar o senhor. Ele queria devolver o dinheiro.
- E cadê o seu avô?
- Ele morreu. Mas eu prometi pra ele que um dia eu ia encontrar o senhor. Agora eu quero fazer a mesma coisa que o senhor fez: quero pagar um almoço pro senhor. Almoço com sorvete, com doce.... Eu vou pagar tudo.
- Meu jovem, qual é mesmo a sua graça?
- Graça? Que graça?
- O seu nome. Como é o seu nome?
- Ah, o meu nome é João Pires.
- Muito bem, senhor João Pires. O que que você faz?
- Eu sou comerciário. Vendo sapato numa loja aqui pertinho.
- Bom, muito bom. Vamos fazer assim: você pega o dinheiro e dê para alguém que esteja precisando.... Faça isso, meu rapaz, e eu já me sentirei ressarcido, já me considerarei até almoçado. Ficamos combinados assim?
- Mas...
Não tem mas. Agora eu preciso ir. Adeus, jovem. Eu moro longe, depois da linha da Mogiana..
João Pires, meio abobalhado, encosta-se à parede, vê o chapéu branco, o terno branco, a gravata escura se perderem em meio às pessoas que entulham a calçada. Depois, segue na mesma direção, atravessa duas praças, entra no Restaurante Amarelinho, almoça, retorna ao trabalho.
Sente-se aliviado, a alma leve.
Alegre, quase feliz, atende dezenas de clientes. Meio aéreo, ao encerrar o expediente, embarca no coletivo, faz viagem longa até seu bairro.
À noite, no sonho bom, a bengala do velho musica toc-toc na calçada e o avô constrói para João Pires uma pipa enorme, parecendo um arco-íris.
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