Deu à lógica. Renan Calheiros do PMDB de Alagoas foi eleito presidente do Senado com esmagadora maioria. Obteve 56 votos enquanto o candidato oposicionista Pedro Taques (PDT-MT), recebeu apenas 18. Foi a vitória de Golias sobre Davi.
A eleição de Calheiros foi bastante comemorada no Palácio do Planalto. Dilma, após a divulgação do resultado, fez questão de, pessoalmente, cumprimentar o eleito e desejar a ele um ‘ótimo trabalho no Senado’. Resta saber, com exatidão, o que a presidenta considera ‘ótimo trabalho...’.
O brasileiro, especialmente a classe política, parece ter memória muito curta. Em 2007, o senador Renan Calheiros foi acusado de pagar vultosa pensão alimentícia à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha, usando recursos recebidos de um lobista que, à época, prestava seus ‘relevantes’ serviços para uma importante empresa da construção civil, empreiteira contumaz de obras governamentais.
Ele quase perdeu o mandato. Conseguiu evitar a cassação exibindo notas fiscais de venda de gado que justificariam os valores pagos. Porém, safou-se mesmo, graças à votação secreta. Até hoje, no entanto, o episódio é considerado por analistas como não convenientemente esclarecido. Mas não é só. O Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, aguarda autorização do Supremo Tribunal Federal para dar sequência a um processo criminal contra Renan Calheiros, pela prática, em tese, dos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. É inegável, porém, que o senador por Alagoas tem uma indiscutível capacidade de estar sempre ao lado de quem detém o poder. No início da década de 90, foi o mais forte aliado do então presidente Collor.
Sabe, como ninguém, ‘ciscar para dentro’, como dizia Tancredo Neves. É um hábil político. Na eleição da última sexta-feira, recebeu votos de senadores do DEM e do próprio PSDB, partidos que haviam prometido apoio a Pedro Taques. Especula-se, porém, quem seriam os traidores, já que a eleição foi secreta. Ele comentou o estranho apoio afirmando que ‘a democracia nada mais é do que o convívio das diferenças’.
Assume prometendo isenção, equilíbrio, independência do Legislativo em relação ao Executivo, transparência, respeito a todos os partidos e, principalmente, diálogo. Aliás, dialogar parece ser sua principal e mais marcante característica, especialmente com partidos menores. Deve herdar a liderança até hoje ocupada pelo ex-presidente e já octogenário José Sarney.
Em síntese, nada como um dia depois do outro. Renan Calheiros sai do inferno astral vivido em 2007 para se tornar, este ano, no homem mais importante do Poder Legislativo brasileiro. Como sempre acredito na capacidade do ser humano em se redimir, fico torcendo para que ele cumpra suas promessas, especialmente a de votar, rapidamente, todos os vetos presidenciais – e são mais de 3 mil –, que aguardam definição no Congresso Nacional há bastante tempo.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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