Historicamente, o funcionalismo público no Brasil sempre foi visto como um grande ‘cabide de emprego’, cargos e funções que serviam apenas para apoiar o paletó e para livrar o felizardo da lida dura do campo ou posteriormente da indústria. Mas, para um país que nasceu e cresceu dividido entre o mandonismo dos grandes proprietários e a obediência cega de escravos e brancos sem posses, isso pode ser considerado até muito natural.
Porém, com o desenvolvimento do país, a diversificação da economia, o surgimento de novas tecnologias de informação e a ampliação das camadas médias da população esse cenário começou a mudar. Uma mudança lenta, é verdade, que tem suas origens mais precisas nas primeiras décadas do século passado e que culminou na Revolução de 1930, quando finalmente os poderosos tiveram que abrir um pouco suas mãos e deixar que uma réstia de poder começasse a escorrer por entre seus dedos.
Daí para frente, a pressão começou a aumentar sobre o funcionalismo, com a população exigindo cada vez mais um serviço público de melhor qualidade. Com a reforma do Estado, iniciada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, já na década de 1990, esses serviços se tornaram ainda mais transparentes e melhoraram em termos de eficiência, a despeito dos vários problemas culturalmente arraigados que ainda persistem.
Nesse sentido, a decisão do prefeito Alexandre Ferreira de avaliar os funcionários comissionados da Prefeitura pode ser vista como uma tentativa de melhorar o serviço público. Ótimo. Qualquer esforço ou iniciativa que vise a melhora de serviços, especialmente na área pública, são sempre bem-vindos. Mas a medida, por mais válida que pareça a princípío, traz algumas implicações para as quais não foram dadas respostas. A principal delas diz respeito à leitura que o Ministério do Trabalho costuma fazer dessas medidas. São encaradas, de forma geral, como assédio e constrangimento contra o trabalhador. É como se fosse uma ameaça pública e geral.
No mundo de hoje, mensurar o desempenho de qualquer funcionário faz parte da rotina de todas as empresas minimamente esclarecidas, pois sem medir os resultados dos projetos e objetivos delineados no planejamento dificilmente uma empresa vai conseguir alcançar os resultados esperados. Dentro desse contexto, e se considerarmos que são as pessoas que realizam todas as ações necessárias para se alcançar os objetivos propostos, nada mais natural do que mensurar também o desempenho individual de cada funcionário. Isso parece óbvio. Mas não é. Mesmo no âmbito privado, as empresas têm limitações para se valer desse tipo de raciocínio. Ela pode dispensar um funcionário que não cumpriu com o esperado, mas não pode ‘pressioná-lo’ muito menos publicamente para que cumpra.
Tanto numa como em outra situação, a discussão é válida. Por que a cobrança por resultados deveria ser vista como natural e positiva, uma vez que os organismos - públicos ou privados - também precisam apresentar resultados. Como parece não estar sendo vista assim, é importante que se discuta a respeito e que se tenha clareza do que está sendo proposto para que se consiga, realmente levar a termo ou, se não for o caso, pensar em outros caminhos possíveis para caminhar rumo a uma maior qualidade dos serviços.
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