Diz o ditado popular que ‘depois da tempestade vem a bonança’. Mas no triste caso de Santa Maria, não é isso que está ocorrendo. Mesmo sem os ‘ventos fortes’ que sacudiram e comoveram praticamente todo o país, deixando boa parte da população atônita em frente à televisão no último domingo, parece que a tempestade ainda continua predominando na região.
As investigações, os enterros, os depoimentos dos que viveram a tragédia, os novos doentes que foram surgindo durante a semana e a enorme repercussão do caso continuam provocando reações de todos os tipos pelo país afora, a maioria delas clamando por justiça, cobrando os poderes públicos e procurando determinar os culpados.
Como consequência a essas reações, o país passou a semana vasculhando e fiscalizando suas boates, casas de shows, igrejas ou qualquer outro espaço fechado que esteja disponível às multidões. Escaldadas pelos tristes acontecimentos, as autoridades competentes de vários municípios começaram a mostrar serviço, como se a fiscalização e as exigências para o funcionamento desses espaços não fossem algo natural e corriqueiro, mas sim uma ação apenas reativa às tragédias vistas de longe, que pelo sim, pelo não, seria melhor prevenir.
Em Franca, obviamente, a cena se repetiu. Bombeiros, Prefeitura, Vigilância Sanitária e Ministério Público começaram a fiscalizar esses espaços e não precisaram de muito tempo para encontrar irregularidades, as mesmas que eles já deveriam ter fiscalizado há muito tempo.
Mas, infelizmente, parece que em nosso país as coisas são mesmo assim. Na certeza de que nunca irá acontecer nada de ruim, alguns seguem transgredindo tranquilamente as regras e outros fingindo que não percebem essa transgressão, ou até mesmo pouco se importando com elas. Mas quando o ‘caldo entorna’ e o pior acontece, saem todos correndo, atirando acusações para qualquer lado e tentando defender-se do indefensável.
Se não fosse a tragédia de Santa Maria, talvez nossas casas noturnas continuassem sem fiscalização, recebendo pessoas todas as noites e funcionando normalmente com todas as transgressões possíveis, como se estivessem à espera de uma nova tragédia.
Nesse sentido, talvez seja até importante que a bonança ainda não tenha ocupado o lugar da tempestade nesse momento, pois todas as cidades brasileiras estão se mexendo para fiscalizar e adequar seus espaços de festas e de shows. O problema, porém, é que por mais comoção que uma tragédia possa causar, logo a bonança retomará seu espaço, o que é natural, pois a vida continua.
E aí correremos o risco de que tudo volte ao normal. Extintores que não funcionam, saídas que não abrem, luzes que não acendem, empresários que exageram na dose e autoridades que não fiscalizam. Quem sabe essa tragédia, que tanto abalou a todos nós brasileiros, não ajude a mudar ao menos isso?
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