“Tornei-me um ébrio. Na bebida busco esquecer/ aquela ingrata que me amava e que me abandonou/ apedrejado pelas ruas vivo a sofrer/ não tenho lar e nem parentes, tudo terminou...” O “hino” O Ébrio, de Vicente Celestino, ecoou pelo Museu Histórico Municipal “José Chiachiri” em 2012 durante apresentação do grupo Seresta & Cia. Em apenas duas horas, os músicos emocionaram cerca de 30 pessoas, que recordaram músicas antigas.
Formado há 12 anos com remanescentes de bandas como o Conjunto Francano de Amadores, a banda tem nove integrantes. O aposentado Jatir Costa, 69, que se intitula, em tom de brincadeira, o líder do conjunto, diz que a missão do Seresta & Cia é recordar as músicas “das antigas”.
“Eu montei o conjunto justamente para gravarmos o nosso primeiro CD, por volta de 2000. Assim, deixamos nossa marca para a família e os amigos e perpetuamos a música seresteira para a posteridade.” E completa: “O disco saiu uma belezinha pura, criamos gosto e fizemos o segundo, em 2009. Agora, estamos preparando o terceiro, que deve ficar pronto no ano que vem [2013].”
Os CDs são distribuídos apenas para a família e amigos, e não têm fins comerciais, por causa dos direitos autorais das músicas. “Você faz um CD e fica 800 músicas boas de fora. Tem uma infinidade”, justifica Jatir o motivo de continuar gravando discos.
O grupo também tenta resgatar qualidades das músicas mais antigas que, na sua opinião, não são mais encontradas hoje. Na opinião de Jatir, as músicas atuais são do tipo “bate-estacas”. “Elas só fazem tum tum tum, não têm melodia, não têm letra. A música eletrônica não sensibiliza as pessoas que são de outras épocas. As nossas músicas falam de estrelas, de criança, dos amigos, falam de tudo que é bonito.”
O repertório do grupo é variado: eles não recorrem apenas às músicas de seresta (canções românticas tocadas pelas ruas, à noite, principalmente no século XX). Durante a apresentação no museu, eles executaram sambas (Mulheres, de Martinho da Vila), tangos (Por Una Cabeza, de Carlos Gardel) e músicas regionais, como Terra dos Meus Sonhos. A Canção, composta por Agnelo Morato e Diogo Garcia, é considerada um hino a Franca do passado.
O Seresta & Cia toca em até quatro eventos particulares e da Prefeitura por mês. Apesar de estar pronto este tipo de serviço, há muito tempo o grupo não é contratado para fazer uma seresta típica, sob a janela, de madrugada, quando a amada do contratante está dormindo. “Hoje, se você cantar à noite, te passam o rapa. Tem muito perigo. Pedem para a gente fazer serenatas às dez horas da noite, por causa da violência. Serenata de verdade é às três horas da manhã”, diz Jatir.
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