Sujeitos ao vazio


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A hipermodernidade (conceito do filósofo francês Gilles Lipovetsky) supera o Novo Mundo de Aldous Huxley. Gente demais, coisas demais, ruídos demais, conceitos demais, desejos demais a serem saciados e que não serão, face ao barramento que é a finitude da existência: sabemos que vamos morrer.

Forja-se, a partir da negação da ideia da nossa precariedade e do desejo de gozar o incomensurável do que se nos oferece, a cultura do vazio, planetária. Lipovetsky argumenta que aí estão inseridas as prerrogativas das satisfações imediatas, do hedonismo levado às últimas consequências, das relações deletáveis, da intolerância à frustração, dos modelos inalcançáveis, do luxo como valor fetichizado.

Nessa mirada, é o sujeito (entendido como aquele que está sujeito a forças que estão além da própria racionalidade) moldado por uma cultura global, cuja largada se dá na Revolução Industrial e deságua na Revolução Tecnólogica/Digital. Tal perspectiva, confrontando o sujeito pulsional ao sujeito esvaziado desse novo mundo inclui necessariamente a drogadição em sua função estupefaciante, no ‘subverter-se’ e desafiar quaisquer autoridades. Não é mais o SOMA, a droga da ficção de Huxley, a serviço do Estado. O drogadito aqui ingenuamente acredita que burla, que passa por cima das leis, sem consequências porque só lhe interessa a narcotização do que lhe atravessa e dilacera afetivamente. Não ver, não sentir, gozar, somente, são as premissas, até explodir num gozo mortífero. Da aspiração, diria ansiedade por uma autonomia, pelo controle da própria existência, passando pela homegeneização de massa via mídias, criam-se modelos inacessíveis, irreais – desejo inalcançável de subjetivação. Cria-se, portanto, em sua face mais aguda, o desamparo.

Resta então, a esse sujeito esfacelado, o corpo biológico que é o suporte onde ele experimenta a existência via sensorialidade, regulando-a conforme o que o impulsiona. O drogadito crê, também ingenuamente, que pode intervir e resolver a sua dor/falta por meio de drogas psicoativas, flertando compulsivamente com a morte, destituído das relações afetivas (porque é à droga que ele se curva e o entorno disso se resume à sedução para obtê-la) e se reduz a um ser capturado e que também, em seu desespero, captura, como um afogado que tenta se salvar agarrando-se em que está por perto.

Seguindo nesse simplório paralelo que tento fazer aqui entre as ideias do filósofo francês e o sujeito pulsional como alguém que também decorre de uma cultura, Lipovetsky acena que a possível solução para o hiperconsumo retroalimentado pelo culto ao consumo estará nas questões ecológicas, na constatação por meio de catástrofes naturais, de que o planeta não sustenta tal consumo. Poderíamos dizer o mesmo desse sujeito atravessado por pulsões e desejos? Não. Não será o medo de morrer que refreará o dependente químico porque conforme Freud, as pulsões (tornadas compulsões) escapam aos controles externos. O superego (a moralidade, a censura, os valores sociais introjetados na formação do sujeito) que o sujeito tenta solubilizar pela suposta transcendência da droga é, contudo, de um rigor absoluto e talvez seja uma via de acesso possível. Não é a condição normatizante externa, médica e sociológica - vide a falácia da prática da internação compulsória como medida higienista que tentam resgatar, ainda que comprovadamente eficaz em somente 2% dos casos,- que refreará o sujeito não singularizado. Ele dará a volta nisso. É mais abrangente e, sobretudo, íntimo, que isso, ainda que a cultura e os seus discursos tenham um peso preponderante nessa realidade.

Vanessa Maranha
Psicóloga e escritora

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