Fio de Ariadne


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Passa um pouco das dez. É hora da visita.

Munida de um pratinho com água açucarada, dirijo-me à frente da casa e o coloco sobre a mureta que separa a varanda do jardim. Olho à volta: nada, ainda. Deito-me no chão, cotovelos apoiados no piso cerâmico e queixo sustentado pelas mãos unidas em concha aberta. Os olhos perscrutam o céu e dele resvalam para o pratinho, e novamente perscrutam o céu...

Sei que ele virá. E, como sempre acontece, não será preciso esperar muito.

Quantos anos tenho? Oito? Nove?...

Quando nosso fio de Ariadne é tecido em odores, cores, formas e afetos, fica difícil mensurar espaços temporais; difícil também perder o rumo nos caminhos labirínticos que nos levam e trazem livremente tempo afora, alma adentro, e aos quais nos aventuramos desde que mergulhamos na Vida; difícil desfazer os elos da grande corrente que nos prende ao espaço percorrido, aos monstros e anjos nele presentes, e nos liberta de Cronos e Saturno.

É extraordinária a dialética da memória envolvendo espaço e tempo.

Ao odor do abacaxi maduro sendo descascado, cortado em fatias e posto sobre a mesa, na pequena travessa, e à imagem do gramado, lá fora, com as buganvílias floridas na manhã de verão, redescubro, num átimo, detalhes aparentemente perdidos, minudências, dados corriqueiros, fragmentos que jaziam sem identidade, sem face, sem contornos definidos, quase amorfos, em algum ponto do caminho, porque, de hábito, eram vistos e revistos com os olhos da denotação. Vou enxergando então sua intimidade, suas familiares peculiaridades; experimentando relembranças, diferentes vibrações espirituais; acariciando-as com os olhos da mulher, enquanto os da menina aguardam a chegada do visitante.

(O suporte da mesinha de vidro, o assento, o encosto e os braços das cadeiras são tramados em fios cuidadosamente retorcidos, semelhantes ao vime, mas que mamãe dizia tratar-se de um papel especial, resistente, mais claro e mais macio do que ele; o paninho de crochê sobre a mesa é trabalhado em relevos - conchas nas ondas do mar; as almofadinhas estampadas, dispostas no assento das cadeiras - e elevadas durante a noite, para que animais da vizinhança não viessem a se deitar nelas - são rematadas por uma trança de algodão verde-musgo. Tudo revisto, revivido, renovado; e tudo tão familiar... O murinho da varanda, na verdade, é formado de uma viga lisa sustentada por pequenas colunas brancas de cimento torneado, dispostas lado a lado, com vãos entre elas que deixam fluir livremente verdes, azuis, amarelos... Há um buraquinho no rodapé, de onde saem e por onde entram filas de formiguinhas em seu trabalho cotidiano de busca e guarda de víveres e vida. Lá estão as buganvílias, uma de cada lado da varanda, ramos entrelaçados ao longo da fachada - cortinas enfloradas a dialogarem matizes, a enfeitarem e acolherem olhares e penas e cantos. Do interior da casa vem o cheiro frutado, aroma inconfundível dos dezembros).

E olha só ele chegando!

Quem conhece um marimbondo cavalo entenderá a aparente incoerência deste episódio.

Havia nas proximidades muitos deles, acotovelando-se em seus abrigos pendentes dos beirais, agitando-se ao menor ruído ou a um deslocamento de ar inesperado.

A ferroada de um ‘cavalo’, dizem, é muito dolorosa!

Mas o meu visitante de todas as manhãs era manso, amistoso, grato pela delícia açucarada que eu lhe oferecia diariamente. Enquanto ele a saboreava, eu - coração aos pulos e alma confiante - alisava suas asas, percorria com o dedo indicador aquele dorso marrom-avermelhado que culminava no temido ferrão, agora tranquilo, incapaz de me atacar.

Desta vez, porém, não foi direto ao néctar que o esperava, como fazia de ordinário, mas veio em minha direção. Senti um sobressalto. Seria ele? Seria um desconhecido inamistoso, agressivo?

Rapidamente, outros escaninhos da memória involuntária são abertos, e a menina tranquiliza a mulher. Sim, é ele que vem a mim, pousa em meus cabelos, caminha sobre eles, embaraça-se nos fios, liberta-se e voa até a borda do prato. É o seu novo trajeto, que cumpre - agora sei -por dias e dias, até novamente se esconder nos caminhos labirínticos da vida.

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