Foi só um flash de memória, ao ver uma fotografia. Passou. O coração é um editor que não para de editar. De tempos em tempos, a memória me conta outra história do que vivi. Haja coração para tanta acrobacia! Ele não inventa nada, apenas recorta trechos da minha vida, muda o contexto deles, o foco principal, faz novas manchetes. De repente, torno-me vítima, algoz, ingênua, estrategista, amada, amante, rejeitada, vitoriosa, desgraçada, luminosa. Sou personagem? Seria...?
Memória é uma ‘caixinha de surpresas’. Rita Hayworth costumava dizer: ‘os homens que me procuram dormem com a ‘Gilda’ e acordam comigo, Rita’. A memória faz dessas peripécias com a gente. A gente dorme com uma e acorda com a outra.
Difícil mesmo é lidar com memória de arquivo, essa implacável: fotografia é um tipo de traição ao que sou hoje. A foto congela aquilo que, em mim, guardo tão desigual!
(Fotografia rasga pedaços de mim)
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