Dados do Banco Central informam que o volume de crédito concedido pelo SFN – Sistema Financeiro Nacional, cresceu 87,7% de 2008 até novembro de 2012, e vem confirmando a tendência crescente da relação crédito/PIB. A partir de 2009, a operação foi largamente utilizada no Brasil para estimular o consumo e sustentar o crescimento da economia em face do agravamento da crise nos Estados Unidos e na União Europeia. De lá para cá, os bancos oficiais vêm desempenhando importante papel ao liderar redução das taxas de juros para algumas modalidades de crédito, tomando a dianteira nas concessões.
Os serviços bancários e, consequentemente, o acesso ao crédito, alcançaram todo o País. O crédito foi disseminado e o mercado atendido até com certa folga e taxas de juros quase civilizadas. Em novembro de 2012, o estoque de operações chegou a R$ 2,3 trilhões, crescimento de 35% em relação a 2010 e 13,5% em relação a 2011. Mas, o estímulo ao consumo via ‘oferta’ de crédito não foi capaz de proporcionar condições para um desempenho mais promissor da economia brasileira.
Operações de crédito para pessoas físicas ascenderam, em novembro último, a R$ 692,8 milhões, e, desde 2008, experimentaram aumento de 78%. Por sua vez, o crédito imobiliário (estoque de R$ 269,6 milhões) cresceu 326% no mesmo período, mostrando dinamismo e firmeza na evolução, fato auspicioso para a economia e para as camadas emergentes da sociedade e, dada a natureza e os objetivos da operação, deve ser considerado louvável ganho econômico e social. Por sua vez, o crédito para aquisição de veículos teve que ser repensado, e seus prazos reduzidos para impedir exacerbação da inadimplência de pessoas físicas (percentual do saldo em atraso acima de 90 dias), que passou de 5,7% em 2010 para 8,0% em 2012.
Com tudo isso, no entanto, a demanda de pessoas físicas por crédito tem crescido mais devagar em face do endividamento de famílias e maior rigor dos bancos para se protegerem de calotes. Em outubro de 2012, o comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida chegou a 21,5%, freando, consequentemente, perspectivas de desenvolvimento e contribuindo para a formação de volumoso risco de crédito nos bancos. Segundo pesquisa da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, em dezembro de 2012 o percentual de famílias com dívidas relacionadas a cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguros, chegou a 60,7%.
O que se espera das famílias é que passem a gerir as finanças domésticas com grande prudência e segurança, e estabelecendo, com rigor, margens de segurança para enfrentar eventos inesperados, deixando de lado ilusões com antecipação artificial de poder de compra. Por parte das autoridades financeiras seria interessante uma mudança de foco e de ritmo no uso das medidas de política econômica, repensando a utilização do crédito e de desonerações tributárias temporárias e localizadas como instrumento de estímulo ao crescimento.
Por outro lado, para dar mais dinamismo à economia brasileira, é preciso desenvolver mecanismos capazes de favorecer a realização de investimentos em infraestrutura e na capacidade produtiva.
Vicente de Paula Oliveira
Economista
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