O céu de Suely é título do segunda longa do diretor brasileiro Karim Aïnouz. Nele, a protagonista é Hermila ( Hermila Guedes), 21 anos, que volta de São Paulo para sua terra natal, a árida Iguatu, no sertão cearense. Numa das primeiras cenas, ela desce do ônibus com seu bebê num braço e uma mala desajeitada a custo arrastada pela mão. Seu objetivo é montar uma banca de venda de CDs e DVDs que o namorado e pai de seu filho trará nas próximas semanas. Mas ele não chega, Hermila se descobre abandonada e, insatisfeita, começa a pensar num jeito de ir para lugar menos inóspito. Resolve rifar-se a si mesma a fim de conseguir comprar um bilhete de ônibus. Passa a vender números para o prêmio Uma noite no paraíso. Isso cria um clima hostil a ela, seja na casa da tia Zezita (Zezita Matos), onde se abriga, seja nos segmentos mais conservadores da comunidade. Iguatu, ora retrata o nordeste ressequido, ora um centro cosmopolita com seu posto de gasolina (chamado Veneza) transformado em lugar de lazer; a feira onde se compra carne de bode é vizinha da loja de objetos (made in China?) vendidos a R$1,99. É o mundo globalizado, onde ao fazer o primeiro movimento para se reinventar, Hermila escolhe outro nome: Suely.
Uma leitura mais rasa, ou de esquerda, poderia frisar apenas a força do meio social na definição dos destinos dos indivíduos. Aïnouz foge a esta tese. Considerando com mais atenção a trajetória de Hermila/Suely, e principalmente levando-se em conta a forma como sua história nos é mostrada, podemos adentrar níveis mais complexos na revelação do desejo como força superior a qualquer imposição do sistema. Ao nos contar a saga da moça, o diretor constrói imagens que conduzem a história ao nível da recriação pessoal, afastando a ênfase no social, embora fosse tentador trilhar o caminho do denuncismo ou do engajamento. O cinema de Aïnouz é outro, reflete sua crença nas possibilidades de transformação do indivíduo, e, neste filme especialmente, trai a admiração pelas mulheres de sua família nordestina, “fortes, irreverentes, delicadas e violentas ao mesmo tempo.”
Necessário é dizer que as imagens (de Walter Carvalho) somam-se para configurar um recurso estético muito rico que é a alegoria: os portais da cidade, as pipas aprisionadas em fios elétricos; a árvore solitária e imóvel; a rodovia; trem, motos, caminhões, ônibus, tudo o que transita; som dos alto-falantes, de carros de propaganda, do vento, do canto de pássaros; a rodoviária aonde a moça indaga “quanto custa uma passagem para o lugar mais longe daqui”. O lugar mais distante é Porto Alegre, para onde ela quer ir mas não tem dinheiro. Esse desejo de evasão, que predomina, contrasta com o sonho recente de se estabelecer com um pequeno comércio, comprar uma casa, criar o filho.
Destacadas, as imagens acima referidas dizem pouco, mas como elementos da estética do todo que é a obra de arte, ganham força ao se interligarem em cadeia de significados que produzem um sentido mais abrangente. Este reforça a jornada da protagonista, entrincheirada entre o que restringe e o que se movimenta, o que fica e o que vai, o permanente e o transitório. Neste contexto, o céu com que sonha Suely não é, mostra-se óbvio com o fluir da trama, similar ao sagrado da tradição cristã, marcado pela paz eterna. Ele é um espaço onde se possa ser feliz, seja lá o que isso signifique em termos relativos. Para a protagonista é um certo jeito cigano de existir, uma recusa ao sedentário, uma aposta no nomadismo que responda ao seu inconformismo. E não, como considerou de início uma análise menos séria,” atender à vocação para a prostituição”. Sobre isso ela é enfática ao responder à tia que lhe pergunta sobre a rifa (“Que idéia de puta é essa?) : “Quero ser puta não! Quero ser porra nenhuma!”
Talvez seja a fala mais expressiva do filme, sob o ângulo que descortina o caráter errante da protagonista, que chega de um lugar e parte para outro sem se apegar a nada, buscando instintivamente fugir de enquadramentos que aprisionam. Se fosse letrada é possível que Suely , sorriso enigmático no rosto, estivesse pensando, na sugestiva cena final dentro do ônibus, sobre a impermanência do ser. Ou talvez, ainda, num acréscimo: se o tempo urge, devemos mais é aproveitar o dia.
PS: O fato de personagens e atores terem os mesmos nomes parece sinalizar para uma equação onde as verdades de ambos se equivalem e o que vemos na tela tanto pode ser ficção quanto realidade: a aspiração do diretor é aproximar em liame máximo o verdadeiro e o verossímil.
CAMINHO PESSOAL
Karim Ainouz
Os filmes de Karim Aïnouz (lê-se Ainús) não se parecem com os de nenhum outro cineasta brasileiro. Sua obra vai se configurando totalmente diferenciada e suas criações têm, desde Madame Satã, primeiro longa, uma assinatura. Cearense de Fortaleza, nascido em 1966, ganhou o mundo depois de se formar em arquitetura pela UNB. Obteve mestrado em Teoria do Cinema pela Universidade de Nova York; trabalhou como assistente de montagem de vários filmes norte-americanos; produziu muitos curtas premiados como inovadores.
O céu de Suely , segundo filme da carreira, tem sua gênese numa notícia de jornal sobre garota que rifou seu corpo para sair de sua cidade. Aïnouz estava em Berlim como bolsista e decidiu escrever o roteiro, contando com o apoio financeiro de uma fundação ligada ao cinema. O filme, que não se oferece a julgamentos e teve nas mulheres da família do cineasta uma inspiração, aposta na capacidade humana de reinvenção. É interessante ler que “ os caminhos trilhados por Aïnouz até o cinema foram construídos por essa incapacidade crônica de parar quieto e por um sentimento de não pertencer a lugar nenhum”. Esta descrição parece bem próxima da protagonista do filme resenhado ao lado.
Depois de Madame Satã ( 2002, mais de 40 prêmios no Brasil e na Europa); e de O céu de Suely ( 2006, selecionado para o Festival de Veneza), o diretor realizou com Marcelo Gomes (do excelente Cinema, Aspirinas e Urubus) outro longa, Viajo porque preciso, volto porque te amo (2010), premiado em Havana, na França e no Brasil, e exibido com sucesso de público em salas do México e Estados Unidos. Seu último longa, O abismo prateado, data de 2011.
Serviço
Título: O céu de Suely
Diretor: Karim Aïnouz
Gênero: drama
Atores: Hermila Guedes, Zezita Matos, João Miguel, Marcela Cartaxo
Fotografia: Walter Carvalho
Onde: nas locadoras
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