O professor


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Sua voz era suave, profunda, falava vagarosamente e ouvia pouco. Convivia com um zumbido constante no ouvido que o atormentava e variava de intensidade conforme o tempo, lugar, atividade e outros fatores. Tinha sonolência durante o dia, devido às noites mal dormidas provenientes deste desconforto, mas isto não o impedia de dar aulas na faculdade e aprimorar seus estudos. Quando se sentia melhor lia e escrevia intensamente. Procurou um lugar mais isolado para morar, instalando-se com sua família em uma chácara aprazível, toda cercada de pés de eucaliptos, não muito antigos, mas altos e finos como ele, que dava a impressão de mal se sustentar em pé. Sua figura era delgada, cabelos ruivos, volumosos, trabalhados em trancinhas finas, caindo até os ombros. O rosto vermelho era magro, como todo o corpo, olhos fundos com olheiras, nariz grande, lábios grossos, dentes irregulares. A barba era comprida, semibranca, em formato de cavanhaque. Seus membros eram longos e os afilados dedos da mão deixavam transparecer os ossos. Embora não fosse tão velho, apoiava-se em uma bengala para firmar o andar trôpego.

Quem não o conhecia, jamais poderia imaginar que por trás daquela aparência frágil e exótica, existisse um homem culto e sofisticado, a começar pela matéria em que era versado: literatura francesa. Dominava a língua de Racine com perfeição, conhecia toda a história da França, obras e feitos de seus filhos ilustres. Viajara muitas vezes para lá, sendo apaixonado por Paris, centro de beleza, poder e elegância, vitrine da cultura francesa. Quando o conheci, não dava mais aulas, apenas orientava mestrandos em suas teses. Estes passavam horas em sua companhia apesar de sua audição restrita. Suas palavras eram sábias e cheias de discernimento. Escrevera vários livros e, nas solenes noites de lançamento, usando seu paletó já gasto pelos anos, era prestigiado por muitas pessoas que o admiravam pelo seu interior, sua capacidade e erudição. Neste plano não existia discriminação, nem olhares curiosos ou críticos em relação à sua imagem, pois o que resplandecia era sua alma, seu espírito privilegiado, seu relacionamento com as pessoas. Ninguém se importava com seu aspecto exterior. Aparência padronizada diante de tanta grandeza, para quê?

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