Interessantes discussões acadêmicas podem ser experimentadas em sala da aula por grupos de estudos, especialmente se for integrado por pessoas com formação multidisciplinar. O que pode surgir em uma sala de aula onde o professor se depara com alunos advogado, professora, psicólogos, assistentes sociais, bancárias, todos estudando psicanálise, foco no tema ‘o inconsciente’, extremamente árduo por tratar de conhecimento abstrato e real ao mesmo tempo; abstrato porque não se tem contato materialmente, mas real por existir no ser humano e por ter mecanismos de acesso. Freud foi um gênio!
Exemplifico: o que significa a palavra ‘vale’? Do ponto de vista do léxico, define-se como adiantamento em moeda corrente do País feito pelo empregador para seu empregado.
Só pode fazer ‘vale’ o empregado que possui crédito com o empregador. Empregador também se utiliza do vale como forma de demonstrar reconhecimento e confiança no empregado, já que, no futuro, o valor adiantado será devolvido para o empregador.
O vale é um extra, um algo a mais. No vale há um ‘lucro’ por parte do empregado que, naquele mês, recebe mais do que o normal.
Olhando sob outro prisma, vale pressupõe também ‘dívida’, pois, o valor recebido é utilizado para pagamento de rombo no orçamento. Dívida pode ser oriunda de fato imprevisto ou de descontrole por parte do empregado.
Vai por ai afora. Podemos fazer várias análises sobre a palavra ‘vale’, inclusive de que há neste fato de pedir adiantamento, pedido implícito de reconhecimento do empregado para o empregador.
No vale há sempre um valor. Quanto vale o sujeito que pede constantemente o vale? Qual é o seu valor? O que a repetição do ato de pedir o vale informa sobre o empregado, e no ato do empregador também conceder o vale? Pode-se afirmar, então, que o valor está ligado a narcisismo. No sintoma há sempre um valor de verdade que está ‘criptografado’, escondido a priori. É na repetição dos significantes no discurso que se apreende o sintoma, podendo ser entendido como:’ sinto mal’, ou seja, na repetição pode ser encontrado aquilo que causa sofrimento, uma queixa, uma demanda.
Pedir vale em excesso pode revelar desorganização da parte do empregado que precisa de ajuda, orientação, direcionamento na sua vida pessoal. O empregador pode utilizar-se dessa possibilidade para orientar seus empregados a organizar a vida pessoal, e também, como forma de estruturar um plano de carreira para sua empresa.
Podemos, ainda, trazer essa reflexão para nossos relacionamentos pessoais. Quantas vezes nos deparamos com pessoas que precisam ouvir que têm crédito, valor, vale, ou seja, que nela confiamos? Por outro lado, se as pessoas repetem esse direito ao ‘vale’, podemos também entender que existe uma dívida por parte dessas pessoas que estão precisando ser pagas.
Será que não existe uma carência, uma falta, algo bem mais profundo nesse pedido de ‘vale’ nos nossos relacionamentos? Qual é o valor desse ‘vale’? Sabemos que o amor sempre aponta para um sujeito do desejo e um sujeito objeto. Vai pedir um ‘vale’ hoje? Se a resposta for afirmativa, pergunte-se também qual dívida estará sendo paga!
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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