Viagem gastronômica à bela Parati


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Na cidade, as casas das saborosas farinhas artesanais são atrativos turísticos
Na cidade, as casas das saborosas farinhas artesanais são atrativos turísticos

Duas pequenas frases de Nina Horta estão a fazer bolinações na minha cabeça há alguns dias, de tão gostosas não as deixo ir embora e utilizo-as como refúgio. Pois bem, melhor tratá-las como inspiração. Os apaixonados pelo lugar bem me entenderão, para os outros será apenas uma bobagem.

“O sol de julho em Parati não doura, mas prateia. Prateia a crista da onda, bate como lua sobre o jasmineiro, sobre cada folha chata e lisa, que faísca inteira.”

Sou apaixonada por Parati, justamente por essa meia capacidade de ser uma cidade litorânea: ao se encaminhar para as praias, melhor levar o livro e/ou o amor juntos, porque chove, porque o sol só prateia, porque tem mosquitos, também porque os paralelepípedos, sussurrando velhas histórias, podem seduzir e nos fazer parar num café.

Nina Horta, pode-se dizer, foi uma moradora de Parati - sua família possuiu por lá um sítio numa das ilhas. Não adianta: morro de inveja. Já procurei, mas não achei nada melhor do que isso na vida. Claro, descartados todos os inconvenientes de se manter uma casa à distância de seu domicílio. Por isso, ela sabe da cidade, do mato, do mar e das miudezas, guardadas aos pescadores e moradores. A cidade da colunista não é exatamente o centro velho de Parati, mas a Ilha do Araújo, a segunda maior ilha dos arredores. E de lá lista as coisas belas que só uma ilha tem. Dizem que o ilhéu é gente diferente da gente do continente, penso comigo que só pode ser o vento de louco que distingue um do outro.

A Ilha do Araújo é também conhecida pelas festas populares, e a mais gostosa delas é o Festival do Camarão, que começa na novena da Festa de São Pedro - esse é o motivo religioso. O outro motivo é mundano, pois comemora-se também o fim da proibição da pesca do camarão. Na festa são servidos vários pratos da culinária caiçara à base de camarão, especialmente o camarão casadinho e o bobó de camarão.

Para os pratos feitos com peixes, para os com frutos do mar, vêm de Parati as melhores farinhas, principalmente a farinha de mandioca branca - perfeita justamente para os peixes. As casas de farinha artesanal estão elencadas como atrativo turístico, porque conservam as suas características originais.

A viagem gastronômica em Parati pode começar antes de chegarmos propriamente à cidade: um bom lugar, que vale a visita, sobretudo ao armazém, é o Recanto Santa Bárbara, na rodovia Tamoios. O local serve uma refeição honesta, mas o destaque é para o armazém, que vende deliciosos doces, queijos, pães e manteigas. Pena ali não ser mais um oásis de calmaria - renderam-se aos playgrounds, atividades de pesca, etc. Mas a comida e o armazém, penso eu, continuam sendo uma boa opção entre Franca e Parati. Ou talvez, a banana ouro, perfumada e doce, seja ainda imbatível.

Mas, pra mim, o melhor da gastronomia de Parati está em Picinguaba. Trata-se de um hotel homônimo que mantém um restaurante localizado numa pequena baía de pescadores, bem no coração do Parque Natural da Mata Atlântica. Está exatamente na divisa de Parati e Ubatuba. Embora todo o local nos induza ao simples, ao despojado, a culinária não calçou chinelos. Claro que os ingredientes são os da terra, claro que os peixes estalando de frescos são os centros das baixelas de porcelana, mas em tudo, absolutamente tudo, se vê o toque de um grande chef, que em momento algum se mostrou. O local, exceto durante o Carnaval, é ungido por um silêncio clerical, onde a natureza é que dita as regras e por lá o sol prateia mais que na Ilha do Araújo, mais que em Parati, prateia até cascos de tartarugas dum raso mar de pescadores.


Dica da semana

Não sei quantos de vocês conhecem muffuletta, o delicioso sanduíche italiano, da Sicília, que parece ter sido criado com o intuito de alimentar bem e rápido os estivadores italianos. Por isso, coloca-se em boa quantidade de um tudo dentro de um belo pão enrolado no papel e come-se por aí, andando, sentado.

O pão desse sanduíche é difícil de achar, por aqui nunca vi. Mas pode-se virar muito bem com qualquer pão cascudo. As receitas são ecléticas, mas vamos a uma já testada.

Pega-se um pão italiano grande e redondo.

Molho: 1 xícara de azeitonas verdes picadas, 1 xícara de azeitonas pretas, 2/3 xícara de azeite, 5 colheres de salsinha bem picadinha, 1/2 xícara de pimentão picado, 1 colher de alho amassado, 1 colher de chá de orégano, 2 colheres de suco de limão, pimenta do reino moída na hora. E salame, mortadela e mussarela a gosto.

Faça a mistura dos ingredientes do molho e deixe marinando por 24 horas. Corte o pão horizontalmente e retire boa parte do miolo, mas, não todo. Besunte bem as paredes do pão com o molho, sem deixar alagar. Forrar as duas partes com a alface de sua preferência. E colocar os ingredientes do recheio, os salames e o queijo.

Coloque um peso em cima e, se conseguir, só o coma no dia seguinte.

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