Você conhece cantiga de roda? Claro. Cantigas de roda são canções populares por serem comum em nosso País e por fazerem parte do nosso folclore. Possuem letras e melodias fáceis com temas ligados à realidade ou ao mundo imaginário das crianças, além de rimas, repetições e trocadilhos que fazem delas brincadeira e aprendizado, já que a criança prende a atenção na história contada, e, por consequência, estimula imaginação e memória.
Pois bem, algumas dessas cantigas, com todo o conteúdo de aprendizagem, podem estar com dias contados. É certo que queremos nossos filhos bem educados, respeitando a diversidade e não maltratando animais. Certo? Certo. Porém, se levarmos ao pé da letra, se formos ‘politicamente corretos’, nossos filhos não poderão aprender essas cantigas.
O homem não pode maltratar mulher, e vice versa. Então não podemos mais cantar ‘o cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada!’. Hoje temos a Lei Maria da Penha para casos de violência doméstica. A nova versão, para não estimular a violência é: ‘O cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada, o cravo ficou feliz e a rosa encantada’. Será que todo encontro é sempre de felicidade?
Lembram do ‘Samba Lelê?’. Também não pode cantar. Se ‘Samba Lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada, Samba Lelê precisava, é de umas boas palmadas’, está proibidoa. ‘Incita a violência contra a mulher. também está proibida porque incita a violência contra a mulher. Lelê é mulher, então a música teria que ser adaptada para: ‘Samba Lelê ta doente, com uma febre malvada. Assim que a febre passar, a Lelê vai estudar’. Também não pode se pode mais cantar ‘A roda’, porque a menina que tem sete namorados, pra se casar não será uma mulher ‘honesta’; da mesma forma que ninguém é ‘pobre de marre-de-si’, porque ressalta a desigualdade social. Por fim, outra que também não pode ser mais cantada é o ‘atirei o pau no gato’, porque violência contra animais é crime e, em alguns casos, inafiançável!
Conversando sobre isso com a amiga Dalva Kellen Dizaró, ela produziu a seguinte reflexão, com a qual concordo: ‘O que muda? Palavras e expressões ganham mais importância que atos? Criticar e mudar letras das canções infantis é mais expressivo que ensinar os filhos, as crianças, o que é o ato de amar e respeitar? Por que tentar buscar em vão explicações tão distantes para o que, na realidade é faltoso nas boas ações, nos bons exemplos? A falta de atenção e de tempo criam filhos incapazes de lidar com suas faltas e até raízes folclóricas; o que é realmente bom estão lhe tirando. Eu cresci ouvindo essas cantigas e nem por isso maltrato qualquer animal ou ser humano que seja. Jamais serei uma rosa que deixará ser agredida pelo cravo, porque isso são flores e nada mais’.
Devemos ser corretos e bem educados, porém, educação deve gerar senso crítico nas pessoas, Senão, é qualquer outra coisa. Acredito que devemos ter conhecimento amplo e eclético para poder selecionar o que, como e em qual momento deve ser utilizado, porém, proibir ou modificar letra decantiga de roda sob fundamento de desigualdade social ou violência de gênero, é desconhecer com profundidade essas questões mais profundas. Nem tudo o que é ‘politicamente correto’ é correto!
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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