A proibição não impede que o Queijo Canastra saia de Minas. Quem conta como é o trajeto do queijo ilegal são os próprios produtores, que usam o “jeitinho brasileiro” para desovar sua produção.
O jeitinho se dá de várias maneiras: compra direta pelo turista que vai até a Serra em busca do queijo, transportadoras, Correios e os atravessadores (intermediários entre produtor e consumidor final). Esse último personagem não é muito bem visto na cadeia de produção, pois, na maioria das vezes, acaba superfaturando o queijo e ficando com a maior parte do lucro.
A reportagem do Comércio conversou com um “atravessador” que, com a garantia de anonimato, contou em detalhes como funciona o esquema. Maurício [nome fictício mudado a pedido do entrevistado] mora em Ribeirão Preto, tem 43 anos e atravessa queijo de Minas para dois Estados (Minas Gerais e Rio de Janeiro) há 16 anos.
O intermediário trabalha em parceria com outra pessoa, um morador da cidade de Medeiros, em Minas Gerais, que fica responsável por negociar e comprar o produto em diversas fazendas. Maurício vai para Minas no sábado à noite, carrega os queijos e viaja de madrugada de volta para casa. “Temos fontes dentro dos pontos de fiscalização nas fronteiras de São Paulo e do Rio e, por isso, sabemos o melhor horário para passar com tranqüilidade”, disse.
Ele conta que, apesar do “esquema” com as autoridades, já foi parado algumas vezes. Na primeira, perdeu toda a mercadoria, mais de 100 peças de queijo. Nas outras duas pagou “propina” e passou. “Eu não concordo com isso. É errado, eu tenho consciência, mas eu preciso trabalhar e as pessoas querem comer queijo de Minas”, afirma.
Maurício compra os queijos por preços variados, entre R$ 8 e R$ 20, e revende nos outros Estados por, pelo menos, o dobro.
FRANCA
Em Franca, é fácil encontrar queijo Canastra, mas como ainda não há rótulos de garantia de origem, é difícil saber se eles são realmente o tradicional produto. Donos de armazéns consultados pela reportagem contaram que compram o queijo de atravessadores, sem nota fiscal, já que o produto é considerado ilegal, mas garantem que sabem da origem e da procedência do que oferecem ao consumidor.
Maurício faz a mesma afirmação e garante que nunca teve problema com nenhum queijo vindo de Minas Gerais. “Sabemos exatamente quem faz, de onde vem e como ele é feito. Conheço cada queijaria e sei da higiene tanto na fabricação quanto na ordenha, mas a garantia é apenas a minha palavra.”
A principal preocupação é mesmo com a higiene, já que do total de 30 mil queijarias existentes em Minas Gerais, apenas 200 têm registro no Instituto Mineiro de Agropecuária. A produção de queijos, como artesanal que é, é sempre pequena. Cada fazenda produz entre 10 quilos e 40 quilos por dia.
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