Tivemos curtíssimas, mas proveitosas, férias de três dias numa rara São Paulo sem congestionamentos e filas, além de também não oferecer quase nada para se fazer. Difícil até cinema - invadido sem piedade por anões situados entre “o alvorecer das fadas e o domínio dos homens”. Também não pude experimentar a mais nova sensação paulistana: o Attimo, porque também engrossava o caldo generalizado das férias.
Recorri a velhas memórias: sabe aquele restaurante que alguém falou, sabe aquele que anotamos e nunca fomos? Além daqueles velhos queridos do coração.
Sobre os velhos queridos, tive uma boníssima surpresa. Se não estou enganada, o Quattrino andava meio caído. Entendo perfeitamente que um restaurante possa ter eternamente um mesmo cardápio, mas, se assim o fizer, aquele mesmo prato deve ter a qualidade impecável, acima de tudo, os ingredientes têm de ser cada vez melhores e, salvo engano, não era isso que vinha acontecendo por lá. No entanto, a memória tende a selecionar as coisas boas e descartar as ruins, por isso sempre voltamos lá. E não é que dessa vez estava tudo excelente! Inclusive o almoço executivo estava temporariamente suspenso para reformulação.
Outro, sempre visitado e amado por muitos, é o indefectível Spot, mas lá não há o que se dizer, porque a comida está sempre perfeita, é quase irritante. A rúcula é sempre novinha e apimentada, o queijo e o presunto de Parma estão sempre estralando de frescor. Só quem tem um restaurante sabe o quanto é difícil conseguir sempre o melhor produto todos os dias. Entendo que na capital seja um pouco mais fácil, ainda assim é prova de grande competência.
Passemos à novidade: há muito tempo eu não comia uma comida tão gostosa, num ambiente tão charmoso. Abro um parênteses: o Azul Culinária Brasileira tem um cliente paulistano que, provavelmente a negócios, está por aqui em várias semanas do ano. E é com prazer que muitas vezes a chef Lelê o recebe na cozinha para um bate papo que os dias tranquilos permitem. E foi ele que nos falou de um excelente restaurante na capital, o La Cocotte. Pois bem: grata lembrança!
Comecei por uma salada de folhas verdes, queijo brie, lâminas de aspargos e vinagrete de pistaches. A combinação dispensa comentários, mas tudo pode dar errado, ou muito certo, e deu! As lâminas de aspargos, cozidas num susto, não perderam cor e consistência. E o vinagrete, perfeitamente equilibrado, mas com um pequeno atrevimento ácido, fez do queijo um desejável remanso cremoso.
Em seguida, passeei por uma panelinha de ferro que guardava aconchegada delícias de mar e rio: quadrados de salmão plenos de umidade, o que não comprometeu a crosta crocante da própria pele. Tentáculos de polvo, que chamados à lide permitiram a invasão de sabores, e lulas tão dóceis e macias... Talos baby de erva-doce completavam a amabilidade de um prato que me fez sonhar. O molho, me explicou o maitre, era uma redução de vermute, erva-doce e açafrão - perfeito.
Só faltava a sobremesa, escolhi um Baba au Rhum, porque adoro coisas fora de moda, além de ser louca por chantilly - e aquele é ótimo acompanhante desse. Acho que as senhoras sabem e já o comeram, mas os mais novos, muitos nem os viram. Trata-se de brioche úmido, que deve ser temperado ao gosto do cliente, na hora de comer, com rum, kirch ou Grand Marnier. Escolhi o rum, e temperei o meu Baba - com a prudência que também os ótimos momentos da vida não dispensam.
PS - Quattrino: rua Oscar Freire, 506.; La Cocotte: rua Ministro Rocha de Azevedo, 1.153; Spot: rua Ministro Rocha de Azevedo, 72
DICA DA SEMANA
A tapioca é uma matéria-prima que ainda será mais utilizada por nós aqui. Sobretudo porque é bem saudável. Ela pode ser extraída da mandioca ou do aipim e pode tanto servir ao doce como ao sal. Concordo que ela é meio sem graça, meio seca, mas pode ser muito melhorada.
Utilizamos a tapioca para fazer um pudim e fica mesmo delicioso, mais substancioso. Não é o mesmo que um pudim de leite todo francês, a proposta é um doce diferente.
Mas vou repassar para vocês aqui a famosa receita do chef Rodrigo Oliveira do Mocotó, que virou uma febre por aí.
1 1/4 de xícara (chá) de tapioca granulada
250 g de queijo de coalho
1/2 litro de leite
1 pitada de sal
1 pitada de pimenta do reino branca
Modo de preparo:
Forre com filme uma assadeira pequena. Numa tigela grande, rale o queijo coalho, junte a tapioca e misture e tempere com sal e pimenta. Ferva o leite e o misture à tapioca, mexendo bem para não empelotar, até que todo o leite tenha sido absorvido. Não deixe a mistura endurecer muito. Coloque já na assadeira e espalhe com uma colher. Cubra com o filme. Deixe esfriar e leve à geladeira por pelo menos 3 horas. Corte em cubos e frite ou asse em forno a 180 graus. Frito é mais gostoso, claro.
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