Márcio César de Souza, 48, nasceu e foi criado em São Joaquim da Barra. Em 1998, a mulher dele passou em um concurso público da Prefeitura de Franca para atuar como professora da rede municipal de ensino. A família mudou-se, então, para a cidade.
Márcio cursava direito na Faculdade Municipal e comprou um terreno de um colega de classe por R$ 3 mil no Jardim Flórida, zona sul de Franca, construiu e se mudou para lá. Pouco tempo depois, passou a realizar atividades sociais e ser conhecido pelo nome do bairro que escolheu para morar.
Nas eleições de outubro passado, o estudante que lhe vendeu o terreno, Marcos Ferreira se elegeu prefeito de Patrocínio Paulista pelo PT. Já Márcio do Flórida, além do apelido, conquistou uma vaga na Câmara de Vereadores de Franca, também pelo PT.
Na prática, a eleição formaliza uma função voluntária que Márcio exerce na região em que mora desde que chegou à cidade. Presidente da Associação dos Moradores do Flórida, Márcio ajudou no asfaltamento do bairro. Junto com vizinhos, conseguiu construir 1,5 quilômetro de calçadas. Ampliou o raio de atuação e teve participação na construção da creche do Recanto Elimar. Desde 2011, é o presidente da Associação dos Servidores do Judiciário do Fórum de Franca, onde trabalha como oficial de Justiça.
Em outubro passado, recebeu 2.313 votos e foi eleito para uma difícil missão: será o único representante do PT numa Câmara dominada por vereadores governistas. Mas a única voz de oposição no Legislativo não é de um petista puro-sangue. Márcio tem pouca identidade com o diretório municipal do PT.
Ele foi um dos fundadores do partido em São Joaquim da Barra na década de 80. Em Franca, tem um histórico tímido de atuação. Ele filiou-se ao PT local em 2002, mas nas eleições daquele ano fez campanha para candidatos de sua cidade natal. Em 2006, pouco tempo após Gilmar Dominici concluir o seu governo em Franca, Márcio deixou o partido.
Nas eleições para vereador em 2008, recebeu 1.037 votos, praticamente, sem fazer campanha. Teve a candidatura indefinida por dupla filiação partidária. Candidatou-se pelo PPS, mas havia registro em seu nome no PSB, partidos que hoje integram o bloco governista na Câmara. Márcio só retornou ao PT em setembro de 2011, prazo final de filiação para quem pretendia disputar as eleições municipais do ano passado.
Conheça a seguir a história de Márcio, o vereador do Flórida, agora, com mandato.
Comércio da Franca - Como começou sua relação com Franca?
Márcio César de Souza, o Márcio do Flórida - Eu vim de São Joaquim da Barra para Franca em 1998. Sou novo aqui, mas conheço bem a cidade pelo exercício de minha profissão de oficial de Justiça. Minha mulher passou em um concurso público da Prefeitura como professora. Por este motivo, mudamos para Franca. Não conhecia a cidade e comprei um terreno do Marcos Ferreira, atual prefeito de Patrocínio. Éramos colegas de faculdade. Me tornei Márcio do Flórida por culpa dele (risos). Tão logo me instalei no bairro, comecei a desenvolver atividades comunitárias sem pretensão nenhuma.
Comércio - O que o senhor fez para a região em que mora?
Márcio do Flórida - O bairro não tinha asfalto, energia e eram poucas casas. Começamos este trabalho de organização, fazendo abaixo-assinado e reivindicações. Por meio do Orçamento Participativo, na época do governo do PT, nos mobilizamos e conseguimos asfaltar todo o Jardim Flórida. Logo na sequência, surgiu a associação de moradores do bairro. Numa parceria com a Prefeitura e com uma empresa privada, construímos em regime de mutirão 1,5 quilômetro de calçadas. Todos os sábados, a gente estava lá amassando concreto. Passamos a atuar na preservação ambiental, não só do Flórida, mas também no Recanto Elimar. Por força deste trabalho nosso lá, fui convidado para participar da fundação da creche do Elimar e fiz parte da primeira diretoria. Assim, fui me tornando conhecido na região. Basicamente, foi o que me proporcionou ser eleito.
Comércio - Na prática, podemos afirmar que o senhor já era um vereador, só que sem mandato...
Márcio do Flórida - Acredito que sim. Nunca ficamos só no discurso. Sempre procuramos resultados concretos para a população. Não tenho dúvidas de que os moradores daquela região que votaram no Márcio do Flórida aguardam por resultados concretos. Lógico que nossa atividade na Câmara não será apenas em busca de resultados para aquela região. A maioria dos meus votos veio dali, mas precisamos pensar na cidade como um todo, já que tive votos em outras regiões.
Comércio - Como vereador de fato o senhor acredita que será mais fácil obter as conquistas para a sociedade?
Márcio do Flórida - Isto só vou poder responder daqui a algum tempo. Continuarei reivindicando. Vou cobrar muito na Prefeitura e nas secretarias. Espero ser respeitado e atendido, mesmo sendo de um partido crítico, que sempre fez oposição.
Comércio - Em qual segmento vai priorizar o seu trabalho?
Márcio do Flórida - Pretendo atuar em várias áreas. Fui escolhido para atuar na Comissão de Saúde, onde acredito que poderei ajudar bastante, principalmente, pela presença do PT no governo federal. Também faço parte da Comissão de Segurança juntamente com o Radaelli e o Adérmis. Estamos programando uma viagem para o Ministério da Justiça, em Brasília, para obter recursos. Sendo o único vereador do PT, pretendo implantar no Legislativo o modo petista de legislar. A intenção é valorizar e aprimorar a participação popular.
Comércio - Qual o seu compromisso com o servidor do Judiciário?
Márcio do Flórida - Eles estão conscientes de que as questões principais da categoria são discutidas em nível estadual, na Assembleia e no Tribunal de Justiça, não no município. A gente pode contribuir nos relacionamentos com os deputados. Uma questão que pretendo atuar e que pode vir de encontro dos interesses, não só dos servidores do Judiciário, mas de todos os servidores, é iniciar um debate em relação ao Iamsp [Instituto de Assistência Médica ao Servidor Estadual] para melhorar o atendimento na área de Saúde a todos os servidores do Estado.
Comércio - Embora tenha participado da fundação do PT em São Joaquim da Barra, em Franca o senhor não é um petista de carteirinha, filiou-se um ano antes das eleições. Como é a relação com o partido?
Márcio do Flórida - Não tenho este vínculo partidário em Franca, o que pode até gerar certa desconfiança de alguns integrantes, mas o tempo vai dizer que nós vamos fazer uma legislatura, sim, afinada, com os princípios do PT, que valoriza, antes de mais nada, os projetos sociais. O PT pode ter cometido alguns erros enquanto governo, mas não se pode nunca acusar o PT de ter se afastado dos projetos vinculados à área social. A administração do PT fez aqui 23 escolas numa época que não tinha recursos como hoje, atuou forte na área da Educação. Há vários pontos positivos, sim.
Comércio - O que não o agrada no atual PT?
Márcio do Flórida - Não me referi ao atual PT. Temos que ser críticos, mas não podemos ficar falando. Vou criticar o governo passado e o atual quando ele se afastar dos interesses sociais, mas serei propositivo e pretendo conversar com todos, independentemente, de siglas partidárias. Não é porque são do PSDB que são inimigos pessoais meus.
Comércio - Durante discurso de posse, o senhor disse que fará uma oposição responsável e que pretende trabalhar em parceria com Alexandre Ferreira. Como será sua relação com o prefeito de um partido arquirrival do PT?
Márcio do Flórida - Falei em parceria no sentido de que vamos usar o nosso mandato para buscar recursos para a cidade. Sabemos que o governo federal tem muitos projetos que podem beneficiar e muito Franca. Nossa arrecadação é baixíssima e não há dinheiro para investimento. Não podemos pegar os poucos recursos que a cidade tem para alargar córregos. Podemos buscar estes recursos em Brasília, mas é preciso apresentar projetos bem feitos.
Comércio - O senhor será a única voz de oposição na Câmara. Os dois vereadores do PT na legislatura passada, Silas Cuba e Paulo Afonso, que faziam uma oposição sistemática, foram derrotados nas urnas. Ou seja, foi um recado de que a população não aprovou a atuação deles. Como ser oposição sem contrariar os eleitores?
Márcio do Flórida - Tenho dito para as pessoas que querem uma atuação forte minha na oposição para não me comparar com o Silas e com o Paulo. Cada um tem um estilo próprio e uma forma de ser. Não vou fazer uma oposição barulhenta, eventualmente, como eles fizeram e muito bem feito. Farei uma oposição dentro do meu estilo. É importante para a cidade e para a democracia que haja uma voz para apontar distorções de caminhos.
Comércio - O senhor ocupa cargo de segundo secretário na Mesa Diretora da Câmara, que é dominada pela bancada governista. Votou em Jépy Pereira, do PSDB, para presidente. Suas primeiras decisões podem ser avaliadas como um indicativo de que fará uma oposição moderada?
Márcio do Flórida - Acho que não. O PT tem conversado com todos os partidos. Nas eleições em São Paulo, PT e PP estiveram juntos. Na Câmara de São Paulo, o PT tem a presidência e o PSDB, a vice. Na Assembleia, idem, o PT participa da Mesa. O PT tem evoluído muito neste aspecto. É por meio da negociação e da conversa que se governa.
Comércio - O fato de não ser um petista “puro sangue” lhe dará maior tranquilidade para trabalhar na Câmara?
Márcio do Flórida - Não. Acho que isto não tem relação direta. O trabalho que vamos fazer é voltado para a população, mas não é incoerente com o partido. O PT sempre se preocupou com as questões sociais e com as pessoas mais necessitadas. Isto não vai mudar.
Comércio - O PT, tradicionalmente, discute o posicionamento em reuniões com a bancada. O senhor é o único vereador do partido. Aceitará interferência do diretório?
Márcio do Flórida - Estou aqui estudando o estatuto do Partido dos Trabalhadores. O PT sempre faz discussões, não só de bancada, mas também na executiva e no diretório quando o assunto merece. Estou aberto a discutir com o partido o que for de extrema importância. Algumas coisas corriqueiras não precisam de conversas, mas os temas importantes serão debatidos, sim, e vamos defender a posição que acharmos correta.
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