Os pilares


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O maior prejuízo da tal crise que está aí jamais será contabilizado. No início dos anos noventa, ao mergulhar na globalização esperávamos ter os mercados mundiais abertos para os produtos brasileiros, mas logo descobrimos que teríamos que concorrer com japoneses, alemães, estadunidenses e chineses. Foi então que a ineficiência, a desorganização e o amadorismo brasileiros afloraram. Não dava pra nós.

Buscando uma solução, importamos programas de qualificação como a série ISO 9000 e partimos para controlar, medir, mapear e organizar nossos processos produtivos.

Melhoramos excepcionalmente e os pilares fundados nas “exatas”, principalmente a engenharia, produção, compras e finanças, desenvolveram métodos e indicadores capazes de mostrar com clareza sua utilidade e eficiência. Ganharam previsibilidade. Variabilidade mínima. Controle.

Ao mesmo tempo as disciplinas “humanas”, ficaram para trás. Áreas como o marketing e recursos humanos, que lidam com questões subjetivas, até tentaram utilizar indicadores, mas só conseguiram produzir “dados emocionais”. E os engenheiros e contadores riram...

Embora todos os discursos falassem da importância do foco nas “humanas”, elas passaram a ser duramente questionadas nas reuniões de resultados.

Enquanto a “produção” e a “controladoria” exibiam seus minuciosos relatórios, as “humanas” não conseguiam provar que eram úteis e necessárias. Passaram a ser rotuladas de “serviços de suporte”, “prestadores de serviços” e “centros de custos”. As áreas que gastam o dinheiro que as “exatas” penam para ganhar, sabe como é? Pois é...

Quando vem a crise (mais uma...), dança quem não consegue provar sua utilidade, seu valor. Seu “retorno do investimento”.

Se uma planilha Excel não consegue mostrar para que serve ou quanto vale o trabalho que você faz, bote as barbas de molho. E então vamos demitir. Cortar os benefícios. Parar com o treinamentos. Olha o cafezinho! Parem com as propagandas! Reduzam as páginas ou a periodicidade do jornal interno. E nem pensem em festa junina, hein? Estamos em crise! E sabe qual será a consequência? Nenhuma, afinal, o que não cabe na planilha, não existe.

Para lidar com os pilares de “humanas” é preciso mais do que competência técnica, muito mais que um diploma de MBA. É preciso ter culhões para apostar em resultados que não podem ser apresentados numa planilha Excel. Mas no meio da crise quem é que tem culhões para apostar no invisível? Na crise, só aposte no que é garantido. No que dá pra ver. No que é exato. No previsível. Sem subjetividades, emoções e percepções.

A crise que vivemos é uma crise de confiança, de fé. Sem fé os negócios passam a ser “fabricar, controlar e vender”. Só. O maior prejuízo da crise que está aí não pode ser contabilizado: é o predomínio dos pequenos executivos que estão derrubando os pilares de “humanas”. Essa gente não tem fé. Só tem medo. (Em meu livro Diário de um Líder).

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista 

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