Homem que perdeu mulher e bebê se culpa pelo acidente


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LUTO - O lavrador Diego Alves de Souza, que sobreviveu ao acidente em que sua mulher grávida e o bebê morreram; ele sofreu ferimentos no braço e pernas
LUTO - O lavrador Diego Alves de Souza, que sobreviveu ao acidente em que sua mulher grávida e o bebê morreram; ele sofreu ferimentos no braço e pernas

O lavrador Diego Alves de Sousa, 25, “reencontrou” o carro que dirigia na noite de sábado retrasado quatro dias depois de sofrer um grave acidente em Patrocínio Paulista. Ele se assustou com o estado do veículo. O Passat, que havia comprado por R$ 3 mil, ficou completamente destruído. Com o impacto, o veículo se partiu ao meio. Estavam com Diego no carro a mulher dele, a dona de casa Elaine Araújo Silva, 22, grávida de sete meses, e o primogênito Rogério, de três anos. Apenas pai e filho sobreviveram. Elaine morreu no local e o bebê Lincoln Rafael, que nasceu em uma cesárea de emergência feita pelos socorristas da Autovias, morreu um dia depois, no hospital.

“Quando vi o carro, não acreditei. Eu e meu filho estamos vivos por um milagre, porque o carro ficou destruído. É um milagre.”

Diego disse que precisará de outro milagre para superar as perdas da mulher e do filho caçula e conseguir recomeçar a vida com o filho Rogério. “Agora é começar do zero. Minha vida virou de cabeça para baixo.”

Diego e Elaine estavam juntos desde 2007 e se mudaram de Anagé, na Bahia, para Patrocínio Paulista havia três anos. Ele veio primeiro, para trabalhar na colheita de café, e depois de 15 dias trouxe a mulher. O casal não tem parentes na região. Vizinhas têm ajudado a cuidar do menino de três anos que sobreviveu e ficou cinco dias internado na Santa Casa. Na sexta-feira, Rogério teve alta.

Diego não decidiu o que fará após a morte da mulher, mas pensa em retornar para a Bahia ou pelo menos levar o filho para ficar com os parentes que moram no Nordeste. “O ideal seria ele [filho] retornar para a Bahia. Eu posso ficar aqui um pouco mais porque ganho bem mais que lá”, disse Diego. Ele ganhava R$ 300 por mês na Bahia e passou a receber cerca de R$ 1.800 em Patrocínio.

O ACIDENTE
Diego afirma que não se lembra do acidente. No sábado, ele disse que trabalhou na colheita de laranja até o começo da tarde e depois se encontrou com a mulher e o filho na chácara de amigos, em Patrocínio Paulista. Ele participaria de uma partida de futebol, mas o jogo acabou cancelado. Para a noite, a família e um grupo de amigos decidiram fazer um churrasco na chácara onde costumavam dormir aos finais de semana.

Para a festa, Diego precisava ir até Patrocínio Paulista comprar carnes e bebidas. Segundo ele, Elaine iria ficar na chácara, mas pediu para acompanhá-lo e o menino foi junto. Diego dirigia o carro. Por volta das 21h30, quando a família passava pela rodovia Fábio Arruda Guidolin, que liga Patrocínio Paulista à rodovia Ronan Rocha, ocorreu o acidente. Diego alega que não se lembra do que aconteceu, mas suspeita que tenha desviado de um caminhão que fazia uma ultrapassagem. “Só lembro que vi um farol na minha direção e parecia de caminhão porque era na altura dos olhos. Ele vinha na minha pista, aí entrei na pista contrária, mas vinha outro carro e retornei para o meu lado. Acho que nessa hora bati no caminhão, que deixou o local do acidente”, disse. Diego admitiu que nenhum dos três usavam cinto de segurança. O carro ficou partido ao meio.

A mulher dele, Elaine, morreu na hora, vítima de politraumatismo. Médicos e socorristas da Autovias fizeram parto de urgência e o bebê, que era prematuro de sete meses, sobreviveu. Foi levado para o CTI da Santa Casa, mas doze horas depois, já no domingo, sofreu uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

O menino Rogério também precisou ficar no CTI. Ele passou dias com um dreno para eliminar líquido que acumulou no pulmão por causa do impacto que sofreu no acidente. O pai teve alta no domingo, mas só foi visitar o filho na quinta-feira.

“Estava com dores nas costas e na cabeça por causa da pancada, por isso só vim hoje [quinta]”, disse Diego, que estava dormindo na chácara dos amigos. “Não quis ficar sozinho na mesma casa onde a gente morava em Patrocínio.”

Diego está com uma tala no braço esquerdo, que se quebrou em três partes. Ele sofreu ainda escoriações no rosto e nas pernas e precisou dar pontos nos pés.

O lavrador disse que ficou inconsciente após o acidente e, quando acordou, já estava na Santa Casa. A psicóloga do hospital foi quem lhe contou sobre as mortes da mulher e do filho recém-nascido. “Foi uma surpresa. Chorei muito. Não acreditei. Pedi para ver os dois mortos pra acreditar. Se só me falassem não ia acreditar. Vi os [corpos] dois para ter certeza.”

No dia do acidente, houve comentários de que Diego estaria bêbado. Ele nega. “Não bebi no dia.”

Diego diz que gostaria de voltar ao tempo e mudar a história. “Está complicado. Tenho um sentimento de culpa quando deito e penso em tudo e aí procuro um culpado para tudo. Se pudesse voltar e deixar eles (sic) na chácara...” Para Rogério, o pai e as vizinhas contam que a mãe está dormindo, ao lado do “papai do céu”. O garoto não pergunta do irmãozinho.

PÍLULA
Diego disse que ele e a mulher decidiram ter mais um filho depois que a renda dele melhorou. Ela parou de tomar pílulas contraceptivas e após quatro meses conseguiu engravidar. “O meu filho também pedia sempre um irmãozinho. Ele conversava muito com ele quando mexia na barriga. Mas até agora só perguntou da mãe.”

A família planejava visitar os parentes na Bahia após o Natal, mas não houve tempo. Foram os familiares que viajaram para cá: vieram na semana passada acompanhar o traslado dos corpos de Elaine e Lincoln para o enterro em Anagé, distante 1,2 mil quilômetros. Diego não foi ao enterro.
 

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