Deputados condenados


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Diz a sabedoria popular que não se deve colocar uma raposa para tomar conta do galinheiro. Uma sábia decisão, diga-se de passagem. Há, também, outro ditado que diz que em certas ocasiões a raposa (na verdade é lobo) se veste de cordeiro para enganar os mais incautos. Nessas ocasiões, as raposas ou os lobos abusam da inocência dos que não percebem o disfarce e acabam se lambuzando com as ‘galinhas’ que deveriam cuidar.

Mesmo que irônico, talvez não seja nenhum exagero aproximar o significado desses ditados do histórico de corrupção que se estabeleceu na política brasileira desde os seus primórdios. Sem muito pudor e amparados por uma tradição patrimonialista que sempre confundiu o público com o privado, grande parte de nossos políticos e governantes não mediu esforços para se locupletar com os recursos públicos, a despeito das muitas e honrosas exceções que existem nesses dois grupos de pessoas.

Nesse sentido, muitos deles foram alçados à condição de guardas de nossos ‘galinheiros’ públicos, mas ao invés de se mostrarem os cordeiros que prometeram ser em seus discursos, agiram mais como vorazes e perigosos lobos, avançando sobre as ‘gordas galinhas’ do patrimônio brasileiro.

E assim passaram-se séculos. Porém, após o desgastante, demorado, mas fundamental processo do mensalão, finalmente o país conseguiu mostrar juridicamente a existência de alguns lobos vestidos de cordeiro, algo que todos já sabiam há mais de 500 anos, mas que ninguém ainda havia conseguido provar.

Mas por incrível que pareça, essa descoberta ainda não foi suficiente para tirar as feras de dentro do galinheiro. Se por um lado o Supremo Tribunal Federal (STF) mandou cassar os deputados condenados pelo mensalão, o que além de lógico e sensato seria a única decisão esperada pelo grosso de nossa população, por outro o Legislativo encrencou. Para espanto de qualquer cidadão com um mínimo de respeito pela democracia e pela República, nossos nobres deputados afirmaram que essa decisão caberia a eles e acusaram o STF de ter invadido prerrogativas que constitucionalmente seriam do Congresso Nacional.

Isso, obviamente, é mais um dos absurdos que experimentamos em nossa política. Deputados condenados por cometerem deslizes com o dinheiro público não poderiam de forma nenhuma continuar nessa mesma função, lidando com esse mesmo dinheiro público, seja na visão do Supremo, do Legislativo ou de qualquer outro órgão público.

Um absurdo que só pode ser explicado pelo corporativismo, mas um corporativismo que não se sabe mais se é entre lobos ou cordeiros. Como já foi provada a existência de três deputados/lobos em peles de cordeiro, era de se esperar que os deputados/cordeiros ratificassem a decisão do Supremo e expulsassem os transgressores do ‘galinheiro’, sob a pena de serem acusados de conivência.

Afinal, como diz outro sábio ditado popular, ‘gato não abraça passarinho’, nem lobo abraça cordeiro.

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