Aos 82 anos, pequeno calçadista ainda trabalha 12 horas por dia


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José Rodrigues Pinto Filho diz que um amigo o inspirou a fabricar botas para homens; atualmente, ele também produz botas femininas
José Rodrigues Pinto Filho diz que um amigo o inspirou a fabricar botas para homens; atualmente, ele também produz botas femininas

Com 82 anos, o aposentado José Rodrigues Pinto Filho deve ser o calçadista mais idoso na ativa em Franca. Ele começou a trabalhar aos 14 anos em sua cidade natal, Delfinópolis (MG) em uma sapataria. Em 1975, já em Franca, fundou uma pequena fábrica de calçados, a Solar, que opera até hoje na Vila Tótoli e produz por dia apenas 36 pares de calçados. As funções administrativas atualmente ficaram para um dos cinco filhos dele, José Arnaldo Pinto, mas o veterano calçadista ainda é responsável por tarefas como transações bancárias e compras de material.

Com 20 anos, já administrava o seu próprio estabelecimento, onde consertava sapatos e bicicletas. Mudou-se para Franca com a família na década de 70 para que os cinco filhos pudessem completar os estudos, mas, a princípio, não queria trabalhar novamente com calçados, queria uma bicicletaria. “Mas, vi que o meu capital não dava. Aí, resolvi abrir uma nova fábrica e fazer uns sapatinhos”, conta.

Com sua produção pequena, José afirma que conseguiu passar ileso pelas crises enfrentadas pelos empresários calçadistas da cidade nos últimos anos. No entanto, a popularização de fabriquetas em Franca fez com que o quadro de funcionários da Solar diminuísse e a sua produção perdesse valor de dez anos para cá.

Depois de começar produzindo sapatos infantis e masculinos, a Solar se especializou em botas masculinas tipo botina, mas isso não foi planejado. “Um dia, há mais de vinte anos atrás, eu notei que o Toinzinho (Antônio Cândido de Souza, do Curtume Toinzinho, já falecido), estava de bota. Guardei aquilo na cabeça”, diz José.

Trabalhando 12 horas por dia de segunda a sexta e ainda encontrando pique para fazer embalagens aos sábados, o aposentando diz que, até os 70 anos, só notava a idade avançada quando se olhava no espelho. Aos domingos, ele vai à missa das 6h30. Religioso, ele repetiu várias vezes a expressão “graças a Deus” durante a entrevista.

Pinto Filho diz trabalhar para compensar a baixa aposentadoria, mas ressalva que gosta de ter o que fazer. “Se ficar em casa, fico só vendo programas chatos na televisão.”

Comércio da Franca - Como o senhor começou a trabalhar no setor calçadista?
José Rodrigues Pinto Filho -
Comecei em Delfinópolis, com 14 ou 15 anos. Trabalhava em uma sapataria, fazendo conserto de calçados e engraxando. Três anos depois, meu patrão morreu, e acharam que eu poderia tomar conta do lugar. Fui ficando moço e precisava ganhar mais. Aí, quando tinha 20 anos, resolvi montar uma sapataria por minha própria conta mesmo em Delfinópolis. Arrumei dinheiro emprestado com um colega, comprei uma máquina de pesponto e comecei a consertar sapatos e bicicletas, além de produzir calçados numa escala pequena. Como toda a vida a gente foi amigo de todo mundo, a freguesia da minha antiga sapataria me acompanhou quando abri o meu negócio.

Comércio - E por que resolveu se mudar para Franca?
José Filho -
Mudei no dia 12 de agosto de 1974. Os filhos foram ficando moços, precisando de estudar e lá [em Delfinópolis] só tinha escolas até o ginásio. Eu queria que eles continuassem estudando até o colegial [ensino médio]. Como eu já tinha casa aqui em Franca, resolvi mudar. Quando viemos para Franca, tive a intenção de mexer com outro negócio que não fosse calçados, como uma bicicletaria, mas vi que o meu capital não dava. Aí, resolvi abrir uma nova fábrica e fazer uns sapatinhos.

Comércio - Foi assim que surgiu a Solar Calçados?
José Filho -
Sim. A Solar foi inaugurada em junho de 1975, em sociedade com o meu filho mais velho, o Reinaldo. Ele é farmacêutico, não trabalha na fábrica, mas, para abri-la, precisava de um sócio. Quem trabalha comigo são dois outros filhos, José Arnaldo e Rubens. E deu muito certo, graças a Deus.

Comércio - O setor calçadista de Franca passou por algumas crises nos últimos anos. Como o senhor lidou com esses períodos?
José Filho -
A gente passou ileso porque procuramos trabalhar com os pés no chão. A gente tem medo de ficar devendo e não dar conta de pagar. Não aumentamos a nossa produção, porque isso depende de capital. Precisaríamos contratar mais representantes, e a gente fica com medo de arrumar empréstimo no banco.

Comércio - Quais as maiores dificuldades de administrar uma fábrica de calçados em Franca hoje?
José Filho -
Uma coisa que me prejudica atualmente é a falta de representantes comerciais. Hoje, tenho poucos. Uns faleceram, outros deixaram de vender. Aí, você arruma um, às vezes dá certo, às vezes não dá... Outro problema que temos é com o pesponto, porque é difícil encontrar mão de obra qualificada. As pessoas têm que ter vontade de trabalhar com calçados. Agora, o pessoal partiu mais para as áreas de computação, para empregos com salário maior.

Comércio - E como o senhor reagiu à popularização de fabriquetas de calçado pela cidade?
José Filho -
Há uns anos atrás, possuíamos muitos representantes, e eles vendiam muito, porque não havia tanta concorrência. Na época em que comecei a fazer botas, tinha poucas fábricas que faziam o mesmo produto em Franca, era mais sapatos. Por isso, eu sempre tinha bastante serviço. Depois, foram aparecendo outras fábricas, a concorrência aumentou e as vendas caíram. Além disso, fábricas grandes, que exportavam, começaram a vender para o mercado interno. O preço de venda caiu de 5 a 7%, e o quadro de funcionários caiu de oito para quatro de uns dez anos para cá.

Comércio - A produção da Solar foca exclusivamente nas botas. Porque decidiu produzir apenas esse tipo de calçado?
José Filho -
Quando abri a fábrica em Franca, comecei fazendo sapatos infantis, depois, masculinos, mas as vendas não estavam indo muito bem. Aí, um dia, há mais de vinte anos atrás, eu vi o Toinzinho (do Curtume Toizinho), que estava de bota. Guardei aquilo na cabeça, fiz um desenho e pedi um modelito pra fazer uma bota mais ou menos daquele jeito. Foi numa hora acertada, porque vendemos bastante.

Comércio - Vocês produzem exclusivamente calçados masculinos?
José Filho -
A partir deste ano, passamos a produzir também botas de montaria femininas, porque as vendas de calçados masculinos estão só caindo, e também porque todo mundo botava na minha cabeça que o calçado feminino vende bem. De fato, eles vendem. Estamos até fazendo amostras para os representantes para vender em janeiro. Mas a nossa especialidade é bota masculina, essas não vamos deixar de produzir.

Comércio - Com os calçados femininos, a produção da Solar vai aumentar?
José Filho -
Pode, mas eu não quero que aumente, porque aí, vamos precisar de mais funcionários, e, como disse, é difícil encontrar pespontadores. A intenção é dividir a produção de 36 pares por dia entre masculinos e femininos.

Comércio - O senhor já pensou no futuro da empresa?
José Filho -
A idade vai chegando, e a gente não tem mais aquela disposição de quando era mais moço. A hora que os meus filhos aposentarem, daqui a uns três anos, a minha intenção é deixar eles tocarem a fábrica. Como eles são mais novos, a fábrica pode deslanchar mais do que comigo.

Comércio - Que tipo de atividades o senhor realiza na fábrica?
José Filho -
Eu faço serviço de banco e compras de material e embalo calçados para despachar. Trabalho o dia inteirinho aqui. Normalmente, trabalho das 6h30 às 19 horas. Graças a Deus, estou na ativa.

Comércio - Então são aproximadamente 12 horas por dia. Não fica cansado?
José Filho -
Toda a minha vida foi assim. Quando eu morava em Delfinópolis, o único dia do ano em que não trabalhava no ano era o da Sexta-Feira da Paixão. No domingo, eu ia à missa cedo e quando eu voltava dela já tinha gente me esperando na sapataria para que eu consertasse sapatos e bicicletas. Hoje, eu trabalho até nos sábados, fazendo as embalagens dos calçados. No domingo, vou à missa às 6h30 e visito amigos. Já me acostumei a trabalhar. Fazendo o meu servicinho, eu estou satisfeito. Gosto de trabalhar, porque se ficar em casa, fico só batendo papinho com a mulher e vendo programas chatos na televisão. Aqui, estou bem.

Comércio - Mas o senhor trabalha também por necessidade?
José Filho -
Preciso trabalhar, porque minha aposentadoria é pouca, o que ganho não dá [para me sustentar]. Ganho um pouco mais que 1,5 salário mínimo de aposentadoria [cerca de 940,00].

Comércio - Quando o senhor se desligar da fábrica, tem algum plano?
José Filho
- Pretendo passar a casa onde eu moro para o nome dos cinco filhos e outros imóveis que tenho para cada um deles. Nesse próximo ano, quero fazer isso e deixar tudo organizado.

Comércio - Com 82 anos, se sente idoso?
José Filho -
Não sinto a energia de um jovem. Com a minha idade, já aparecem algumas coisas, como manchas na pele e na cabeça. Mas, quando eu tinha uns 70 anos, eu só via que eu estava velho quando olhava no espelho! Mas tenho saúde, graças a Deus.

Comércio - Já se sentiu discriminado por ser idoso?
José Filho -
Felizmente, todo mundo me trata muito bem, graças a Deus. São muito respeitadores em relação à minha idade. Até admiro quando entro numa loja ou nos bancos e vejo a atenção dos vendedores com a gente.

Comércio - O que o senhor acha que a terceira idade mais precisa hoje em dia?
José Filho -
As pessoas mais velhas precisam de saúde. No pronto-socorro, por exemplo, o que a gente vê hoje é muita gente e poucos médicos. Eu e a minha mulher temos plano de saúde e, graças a Deus, somos muito bem atendidos.

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