Durante os últimos anos, boa parte da população francana viveu sob a ameaça de paralisação do único hospital com o qual poderia contar: a Santa Casa de Misericórdia. E foram várias, ora passando pelas cirurgias eletivas, cujas filas continuam longas até hoje, ora resvalando nas consultas ou em vários outros serviços.
As explicações para essas ameaças eram sempre as mesmas: o repasse insuficiente feito pelo SUS, a falta de recursos, o déficit mensal de R$ 2,5 milhões e uma dívida de aproximadamente R$ 60 milhões. Nessas ocasiões, a fala da diretoria da Santa Casa era bastante clara, ou se arranjava o dinheiro imediatamente, ou o hospital fecharia suas portas em um curto espaço de tempo, o que motivou inúmeras reuniões entre representantes do governo do Estado, nossos deputados, representantes da Prefeitura e a própria Santa Casa.
Mas eis que de repente, como em um passe de mágica, a mesma diretoria que ameaçava paralisar as atividades veio a público dizer que não existia crise na Santa Casa e que a situação estava totalmente controlada. Uma declaração que obviamente soou estranha para toda a cidade, mas que logo se explicou pela ameaça de extinção da Fundação Casa de Misericórdia de Franca por um inquérito civil aberto pela Promotoria Pública.
Mas a situação não durou muito tempo. Passado pouco mais de um mês, a Santa Casa pôs-se a ‘gritar’ novamente e dessa vez a plenos pulmões. Por falta de medicamentos e outros insumos foram canceladas cirurgias, exames laboratoriais e sessões de fisioterapia. Nos últimos dias, mais de mil pacientes ficaram sem atendimento e tiveram que voltar para casa com suas dores e suas frustrações, talvez ‘rasgando’ o verbo contra a própria existência e com certeza cuspindo nas páginas que deveriam ser sagradas de nossa Constituição.
Mas se o grito de socorro da Santa Casa trouxe até a paralisação das sessões de quimioterapia de pacientes do Hospital do Câncer como novidade, as explicações revelaram as velhas ladainhas de sempre, ou seja, as altas dívidas acumuladas, o repasse de verba insuficiente pelo SUS, a necessidade de mais verbas do Estado e a impossibilidade do município de fazer qualquer coisa.
Dentro desse contexto, e a despeito das sessões de quimioterapia já terem sido retomadas, pelo menos dessa vez a Fundação Casa de Misericórdia de Franca deveria ser chamada a dar explicações mais precisas sobre sua atuação como entidade responsável pelo funcionamento dos principais hospitais francanos.
Afinal, se ela não tem controle sobre a gestão dos hospitais que administra, deveria ao menos ter controle sobre o significado das palavras que expressa. Deveria, portanto, saber que ‘sob controle’ é totalmente diferente de paralisação, sobretudo quando a distância entre as duas expressões não chega a dois meses.
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