No último dia de aula do curso de psicanálise recebemos a visita da pesquisadora Ane Patty, para falar sobre seu interessante projeto de pesquisa de doutorado em psicologia. Ela nos apresentou o bebê reborn.
São bonecas que imitam, com muita perfeição, um recém nascido. A mãe compra esse ‘filho’ pela Internet. Escolhe a cor da pele, dos olhos, da roupa, do cabelo. Enfim, compra-se o bebê perfeito.
O reborn tem realismo impressionante. É capaz de confundir qualquer pessoa, pois tem unhas, a pele de silicone tem textura compatível à humana, sobrancelhas. Tem até cheirinho de bebê. Fiquei perplexo com a perfeição . Também, pelos motivos que levam mulheres a buscar esse tipo de objeto. Para elas, é como se a boneca tivesse vida própria. As ‘mães’ lhes programa festa de nascimento, de aniversário, chá de bebê etc.
O que leva uma mulher adulta a comprar uma ‘boneca bebê’ e dar a ela o status de filho real? E só ‘brincadeira’ ou é sinal de transtorno, já que a fase de brincar com bonecas é a infância. Adultos, há outras questões a serem enfrentadas que não coadunam com o brincar com bonecas.
Não parece ser ‘brincadeira’, não. A ‘mãe’ dessa ‘boneca bebê’ acredita ter um filho, e que precisa cuidar dele com tal! É possível encontrar a ‘mãe’ passeando em parque com seu ‘bebê’. Há divertimento na ‘mãe’ quando alguém brinca com a ‘boneca’ acreditando que se trata de bebê real. Informações sobre como contar a parentes que a mulher vai ter uma ‘boneca bebê’ também estão disponíveis. Todas as implicações que um bebê real gera, se repetem na chegada dessa boneca.
Criar um filho, dar educação, enfim, torná-lo ser decente e com princípios éticos e morais, que o capacitem a viver em sociedade, não é tarefa fácil. Já, brincar de boneca na fase adulta, brincar de faz-de-conta, talvez demonstre uma não aceitação natural desta fase, um desejo de retorno à infância.
Na infância, brincar de boneca é natural e saudável, mas, na fase adulta, com dedicação e cuidados necessários como se fosse a um ser real, vai muito além de simples brincadeira. Isso nos remete a outras indagações: o que estamos fazendo com as nossas crianças de verdade? O que é uma criança? Quais os direitos das crianças? Quais são as obrigações dos pais com sua prole? Estamos respeitando essa fase importante na formação do ser humano? As crianças estão brincando o necessário para dar suporte à adolescência e à fase adulta? Criança pode ser objeto de desejo e de compra de adultos? Estamos tratando crianças reais como bonecas? Podemos entender simplesmente que essas reborn são apenas aperfeiçoamento das bonecas de antigamente?
A palavra “reborn’ pode ser traduzida como renascido, nascido de novo. Nossa sociedade está renascendo? Podemos definir esse fato como renascimento? Que adulto somos neste século XXI, tempo das mudanças tecnológicas? Estamos renascendo nas questões sentimentais e psicológicas?
Acredito que o ser humano atual se distancia das questões reais. Viver é tarefa árdua, exige trabalho, empenho, dedicação, vontade, luta, garra, determinação. É tarefa para os fortes. A vida não é brincadeira ou faz-de-conta. Podemos criar a história da nossa vida, mas essa história sempre será real e com possibilidade de renascimento. Negar a realidade também é forma de renascer! Nossa sociedade está se tornando complexa!
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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