É triste, mas é a realidade. Em pleno século XXI, depois de tantas conquistas sociais, econômicas e tecnológicas experimentadas durante a evolução humana, a vida de muitas pessoas em Franca ainda dependia de um simples fax, o ‘fax da morte’, como ficou conhecido entre as pessoas que com ele trabalhavam ou dele dependiam. É que desde 2007, a autorização para internar algum paciente na Santa Casa de Franca estava sob o controle do governo do Estado e por isso era feita de forma remota, por intermédio desse temido e ‘maldito’ fax, desde que o motivo da internação não fosse de urgência, é claro.
Por incrível que pareça, quem decidia se um paciente deveria ou não ser internado não era o médico que o atendia, mas sim um outro, a 400 km de Franca, que não conhecia o paciente, não sabia nada do caso e nem da realidade que perpassa a saúde pública de Franca, algo que com certeza não cabe na racionalidade administrativa que impera nos dias de hoje, mesmo dentro das organizações públicas.
Obviamente, essa situação inusitada deve ter causado muito constrangimento entre médicos, pacientes e funcionários nesses últimos cinco anos, já que pelos mais variados motivos, muitas vezes o fax não encontrava imediatamente o responsável pela autorização em seu espaço de trabalho, o que acabava gerando uma espera desnecessária e inexplicável, sobretudo para aqueles que perderam seus entes queridos nessa situação dramaticamente surrealista.
Mas, como não há mal que sempre dure, parece que agora as coisas vão melhorar. Em função da indignação que essa sistemática vinha causando entre médicos, pacientes e funcionários, a Prefeitura anunciou que vai reassumir a decisão de autorizar as internações na Santa Casa. A partir de janeiro, a decisão de quem deverá ou não ser internado ficará com os médicos do Samu, que deverão entrar em contato direto com a Santa Casa para pedirem a autorização.
No entanto, apesar dessa mudança, não há como esconder o descaso com a saúde pública não apenas em Franca, mas em todo o país. A despeito de ser um direito público subjetivo garantido pela Constituição de 1988, ainda nos deparamos com situações absurdas como essas. E o pior de tudo é o tamanho do descaso. Em uma era de comunicação rápida e praticamente instantânea, em plena era de torpedos, celulares e Facebook, os cidadãos mais carentes de Franca, como de várias outras cidades paulistas, ainda dependem de um mero fax para garantir seu direito à saúde, um aparelho que apesar de ainda ser utilizado em empresas e outras organizações, já está mais para objeto de museu do que para meio de comunicação.
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