Às vésperas de completar seu 105º aniversário, o arquiteto Oscar Niemeyer morreu no último dia 5, quarta-feira, no Rio de Janeiro, vítima de complicações respiratórias. Seu legado, entretanto, está eternizado em mais de 600 projetos com a sua assinatura -ao menos três deles fincados na região, em um raio de 150 quilômetros de Franca. O estádio de rodeios do Parque do Peão de Boiadeiro, em Barretos, a Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Pedregulho, e o campus do Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto fazem parte da trajetória profissional do expoente da arquitetura universal.
Niemeyer fez um quarto projeto para a região que nunca saiu do papel. Trata-se do Memorial Portinari, espaço para ser construído nas terras da Fazenda Santa Rosa, onde o pintor Candido Portinari (1903-1962) nasceu. O projeto inclui um auditório com 500 lugares e uma ala para exposições, entre outros ambientes.
“Coração” da maior festa de peão da América Latina, o estádio de rodeios do Parque do Peão de Barretos se tornou um marco no mundo dos rodeios: tem forma de ferradura -símbolo forte da cultura country - e arquibancadas com capacidade para abrigar 35 mil pessoas sentadas.
Consternada com a morte do arquiteto, a diretoria de Os Independentes, entidade promotora da festa, enviou duas coroas de flores para homenagear Niemeyer - uma para Brasília, onde o corpo foi velado no Palácio do Planalto, e outra para o Rio de Janeiro, onde aconteceu velório no Palácio da Cidade e enterro no cemitério São João Batista.
A informação é de Mussa Calil Neto, membro da entidade e vice-prefeito de Barretos. Ele afirma que as homenagens não param por aí. Segundo ele, por ser sócio benemérito de Os Independentes, o arquiteto será lembrado na próxima assembleia do grupo, em janeiro. “O título de sócio benemérito lhe foi conferido em seu aniversário de 100 anos.”
A maior homenagem, no entanto, talvez pudesse advir do âmbito arquitetônico. Embora a entidade demonstre orgulho pela obra e gratidão ao arquiteto, o projeto original de Niemeyer foi descaracterizado com a construção de três camarotes que quebram a visão global da arena e a simetria das arquibancadas. O fato motivou lamentos de Niemeyer em entrevista à Folha de S.Paulo em 2010.
Mussa defende o projeto do estádio em sua concepção original. Ele acompanhou toda a transposição do sonho do papel até o “chão preto” de Barretos. Desde 1984, quando Niemeyer recebeu integrantes de Os Independentes, em sua cobertura da avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, até a conclusão da obra, em agosto de 1989.
Niemeyer, por sua vez, sobre a sua criação em Barretos, disse em 1985, que a ideia era “criar um estádio polivalente, servindo ao esporte, à música, às grandes festas populares e ao rodeio de forma perfeita”. O arquiteto afirmou ter pensado em um estádio que fosse, ao mesmo tempo, um grande anfiteatro. “É, sem dúvida, diferente de todos os outros construídos neste País”, disse.
E se em Barretos o projeto de Niemeyer foi pensado para multidões, em Pedregulho acontece o contrário. O talento do arquiteto descansa em um projeto bem particular.
A fazenda Nossa Senhora Aparecida tem em seus 1,2 mil alqueires uma sede social, em estilo colonial, assinada por Niemeyer. O local pertence à família do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, morto em dezembro de 2010, e concentra 5 milhões de pés de café.
Os traços do arquiteto na suntuosa casa de mil metros quadrados edificada no topo de um elevado com vista para uma represa e montanhas têm sequência em uma capela. No anexo, um pequeno espaço de cerca de três metros quadrados interligado à casa por um corredor com beirais abaulados, a integração da luz natural através de um vitral em azul e branco é o ponto alto do projeto exemplar de arte moderna.
Também valorizam o projeto, a área de lazer, onde uma piscina aquecida forma um mapa do Estado de São Paulo estilizado, e a rampa de acesso à casa, com linhas curvas que contrapõem os ângulos retos, comuns ao estilo colonial da fazenda.
Outro projeto de Niemeyer na região está em Ribeirão Preto desde 1972, onde ele desenhou a unidade 2 do Centro Universitário Moura Lacerda, na avenida Doutor Oscar de Moura Lacerda. Linhas curvas, ângulos obtusos e oblíquos, estruturas em concreto armado e a integração com a paisagem do entorno são características típicas da arquitetura de Niemeyer que estão espalhados no campus de 1,1 milhão de metros quadrados.
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