Depois...


| Tempo de leitura: 3 min

“Agora, por enquanto, não posso. Meu horário não dá” “Depois que eu me aposentar, eu vou fazer tanta coisa pra mim...” “Agora estou ajudando minha filha com os netos... fico só por conta disso”. “Deixa passar essa confusão: depois que meu filho entrar na faculdade, aí vou fazer o que eu quero”. “Quando as crianças crescerem e forem para a escola, aí vou curtir minhas coisas...”

Ando observando, com muita frequência, como as pessoas estão condicionadas ao depois, adiando seus desejos. Depois que tudo passar, aí eu vou fazer o que quero. Mas o que vai passar? E quando? E, afinal, quando é o depois?

Recentemente, pudemos acompanhar pelos jornais do país a despedida do ministro Ayres Britto, dizendo adeus à vida pública por ter que se aposentar, compulsoriamente, aos 70 anos. Suas revelações em uma entrevista, digna de ser guardada, acorda nossos sentidos, nosso coração, nossas convicções e nossa espiritualidade. Ele confessa ser vegetariano, espiritualista e praticar a meditação diariamente. Provavelmente, esse mundo árido das leis e o improvável ambiente político do nosso país nunca pensaram em ouvir tais afirmações. Duas coisas poderiam acontecer: a ridicularização ou a admiração. A primeira, que poderia vir pela via dos intelectuais de carteirinha, não teria sustentação, dado o alto grau de competência e conhecimento do ministro. A segunda, amparada por aqueles que conseguem ver o homem por trás da toga, levaria a uma reflexão mais profunda. O que nos chama atenção é a qualidade de suas leituras, dos autores escolhidos e da sua definição ampliada: “De 20 anos para cá , deixei a religião e me tornei um espiritualista”. Isso nos mostra a possibilidade de ir além dos rótulos religiosos que muitos carregam como bandeiras, mas não dão o passo verdadeiro na direção do Ser Maior. Ele fala de seu caminho para se tornar um homem contemplativo e entendamos por isso a capacidade de “contemplar a água e o copo antes de beber, de sentir o toque da sua mão no cristal...” Isso não é viagem, como diriam os dotados apenas pelo espírito prático, mas é a sensibilidade desenvolvida para viver exatamente o aqui e agora. E com relação à sua posição, ele não se envaidece, mas diz que “sem a eclipse do ego ninguém se ilumina”. E complementa: “É preciso expulsar de si o ego para que o espaço dentro de você seja preenchido pelo universo, pelo Cosmos, pela existência, que outros preferem dizer por Deus”. Mas o que realmente me chamou muito a atenção foi quando o jornalista perguntou se nos três meses de julgamento do mensalão sua rotina havia mudado. E ele responde com convicção: “Não mudou em nada. Continuei meditando todos os dias, tocando violão quase todos os dias. Eu apenas diminuí minhas saídas de casa para me deleitar com espetáculos, teatros, música”.

É esse o estado meditativo. É para isso que meditamos. Não é para ficar sentados em silêncio, imóveis e, muitos diriam, alienados. Mas é que através desse caminho, conseguimos trazer para a vida diária a possibilidade de lidar com as tensões e conflitos de forma harmoniosa e tranquila. É a consciência de não deixar a vida para depois.

E nós, em situações muito menos tensas do que essa vivida por Britto, achamos que não podemos fazer mais nada, até aquela tempestade passar... Só depois... Quando? É possível confirmar, a cada momento, que o depois não existe... Só existe o agora. Assim nos ensinou o ministro.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários