À espera do Salvador


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Inicia-se novo tempo litúrgico na vida celebrativa da Igreja: o Advento. É o tempo da novena dedicada à nossa padroeira, a Imaculada Conceição

O que é o Advento? Com essa palavra os pagãos queriam indicar a vinda do seu deus. Num determinado dia, expunham ao culto a estátua certos de que, ao mesmo tempo, se tornaria presente no meio dos seus fiéis, disposto a distribuir bênçãos e conceder seus favores. A palavra “advento” significava também a visita de um rei a uma cidade, ou então indicava o dia da coroação do soberano.

Os cristãos aplicaram todos esses significados à “vinda”, ao mundo, do próprio Deus, que se manifestara em Jesus; reservaram porém o termo “advento” para o período dedicado à preparação desta “visita”. Quais as lições que a Palavra de Deus nos oferece neste domingo?

1ª LEITURA — JEREMIAS 33
Os israelitas, aos quais o profeta dirige suas palavras, se encontram em situação triste. Voltaram há pouco do exílio da Babilônia e encontraram Jerusalém em ruínas. Sua terra se transformou num antro de chacais; ao redor só há sinais de morte e de destruição deixados por soldados da Babilônia. Começa a reconstrução da Nação, mas os trabalhos prosseguem a passos lentos. Todos se perguntam: por que fomos golpeados com calamidades tão grandes? Terá Deus nos abandonado? Terá esquecido as promessas feitas ao nosso pai Abraão, a Isaac, a Jacó, a Davi?
Para esses o profeta dirige sua mensagem: estão chegando os dias nos quais o Senhor cumprirá as promessas de bem que fez a seu povo. Da família de Davi surgirá rebento santo, que estabelecerá a paz e a justiça. Ele consegue infundir coragem no seu povo. Também hoje passamos por situações semelhantes. Desencantados, repetimos que”não compensa lutar, afinal, nada vai mudar”, que “não há mais nada a fazer”. Estas palavras não podem ser repetidas por aqueles que acreditam nas promessas de Deus.
O “rebento de Davi”, esperado pelos israelitas, já chegou: é Jesus de Nazaré. Com ele teve início o Reino de Paz e de justiça. Não podemos nos iludir: a construção do mundo novo não se concluiu com o nascimento de Cristo. Exige tempo e precisa de nossa colaboração. Quem se deixa levar pelo desencanto e pelo desânimo, não entendeu nada da lógica do Reino de Deus. Lembremos-nos: os verdadeiros profetas são os que transmitem entusiasmo, como fez o profeta com os israelitas que voltavam do exílio da Babilônia. São os arautos da esperança.

2ª LEITURA — Iª TESSALONICENSES 3
O motivo da escolha deste trecho para hoje é que, nele se fala da “vinda do Senhor Jesus com todos os seus santos” e porque também nos orienta sobre o modo de nos prepararmos para a vinda. Dirigindo-se aos cristãos de Tessalônica, Paulo reconhece que são excelentes, mas pede ao Senhor para que os faça crescer ainda mais no amor recíproco, única maneira de se manter vigilante para a vinda do Senhor.
Também nas nossas comunidades o relacionamento entre as pessoas talvez esteja num bom nível: mas é sempre possível aperfeiçoá-lo. Por que não poderão ser superadas algumas incompreensões e evitados alguns atritos que ainda persistem? A busca da harmonia com todos os membros da comunidade, á prática do amor recíproco, que Paulo recomenda aos cristãos de Tessalônica, não podem ser substituídas por nenhuma prática de devoção ( ainda que recomendável) através da qual procuramos nos preparar para o Natal.

EVANGELHO — LUCAS 21
O capítulo 21 de Lucas é um apocalipse. O gênero literário apocalíptico não quer falar de coisas que irão acontecer num futuro remoto ou próximo. É aqui, em nossa história cheia de conflitos, que somos chamados a levantar a cabeça e ficar de pé, pois nossa libertação está próxima, ou seja, está em curso, pois o Cristo, tendo vencido as forças da morte, está vivo e virá para nos salvar definitivamente. É próprio da apocalíptica traduzir, por meio de sinais grandiosos, a presença do Filho do Homem na história. Os vv. 25-28 não fogem è regra e mostram alguns desses sinais no sol, na lua e nas estrelas. No Antigo Testamento, essas catástrofes cósmicas são sinônimo da presença do Deus que age na história em favor de seus aliados. Na nova Jerusalém não mais existirão sol, lua, estrelas. Tudo é novo. E essa novidade é resultado da própria ação de Deus, que tem poder sobre os elementos cósmicos. Portanto, longe de assustar, essa linguagem quer animar, dar esperança e fortalecer na resistência. Isso vale também para Lucas.
Com essas imagens estranhas, baseadas em catástrofes cósmicas, o evangelista afirma que os inimigos do projeto de Deus (as nações) vão perdendo, por força do testemunho das comunidades cristãs, as máscaras que ocultavam a injustiça e perversidade da sociedade. A vinda do Filho do Homem não é algo que se deespere passivamente. Ao contrário, é já uma presença cuja manifestação depende do testemunho dos cristãos. Em segundo lugar, a vinda do Filho do Homem é salvação dos que permanecem fiéis:
Os primeiros cristãos pensavam que a segunda vinda de Cristo iria acontecer em breve. Diante disso, muitos deles deixaram de ter aquela garra que caracterizava os inícios das comunidades cristãs, passando a levar vida mansa, sem trabalhar, vivendo às custas dos outros. Para Lucas, não é assim que se espera a vinda do Filho do Homem. Pelo contrário, mediante a lucidez, o senso crítico em relação à sociedade e aos acontecimentos da história é que as pessoas vão descobrindo a presença do Deus que age conosco em nosso favor. A vigilância ativa acompanhada pela oração-discernimento: a vinda do Filho do Homem não é expectativa passiva de acontecimentos futuros. É prática cristã que não se acomoda (fiquem acordados), procurando adequar-se mediante a oração, à vontade de Deus.

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br

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